sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Amores e amadores


A arte é tão necessária à alma humana como a necessidade de comer causada pela fome, é o que nos diz Artaud. Sempre tive muita simpatia por este tipo de afirmação e percepção da manifestação artística não como um grito ou um desejo, mas apenas como uma necessidade; forte, inquieta e poderosa, que nos pode levar a caminhos gloriosos ou destrutivos. Desenvolvemos por ela um desejo e uma vontade cuja intensidade nos permite a chamar de amor. Amor pela arte. Conheço muitas pessoas que me afirmam que ela vem da alma, outros dizem que não fazem a menor ideia do que seja realmente, alguns querem fama, mas são bem poucos. Geralmente são os que ganham mais dinheiro.

Se a amo, não saberia dizer se esta é a melhor palavra, ou sequer se há uma definição que possa explicar em palavras minha relação com a arte, que me persegue desde bem pequeno. E por esta ânsia que povoa o cérebro e até mesmo o coração eu busquei por muitos anos, e ainda o faço, conhecê-la, estudá-la, construí-la e, até mesmo, possuí-la em minhas mãos e minhas palavras. Este conhecimento e mergulho profundo me levam a um abismo de emoções que, embora inexplicáveis, se tornam tangíveis e então posso tocar com minhas palavras a minha própria alma.

Há os que me perguntam se a amo. Me dedico a ela, talvez isto seja amor, ou apenas respeito e compreensão. Há os que batem no peito e gritam este amor do fundo de suas entranhas; contudo os vejo deixando sua arte abandonada, frágil, perdida, descontrolada, isto porque fazem exclusivamente por amor e isto os torna amadores. Tudo o que faço exclusivamente por amor é o que faço com todas as minhas forças para que seja o mais perfeito possível. O amor deveria trazer a necessidade de conhecimento, de aprimoramento e perfeição. Não há amor que sobreviva ao tédio à melancolia de nunca se sair do lugar.

Não há amores, nem amadores. Porque de tanto amar a arte é que me tornei profissional; para garantir a ela o que eu tenho de melhor. Quem ama não abandona o que é amado na frieza do conforto comodista de querer tudo fácil e gratuitamente. Quem ama aprende, técnicas o quanto forem precisas; aguenta, a aspereza do caminho em direção à luz. Há amores e amadores anunciados por toda parte. Há também artistas, pois a arte não é a coisa amada, ela e seu artista são uma coisa só.


terça-feira, 5 de julho de 2011

Mundo Distante

Sentado no ponto de ônibus, no portão da unidade de uma faculdade particular, esperando ônibus, havia ido lá acompanhando minha namorada, vi um homem que subia o morro a pé com uma garotinha, ele me pareceu ter menos de quarenta e ela uns nove ou dez anos. Iam para casa pelo que imagino, era por volta de oito e meia da noite. Logo acima da faculdade fica um bairro de periferia. Percebi muito pouco da conversa dos dois, mas no que pude ouvir ele explicava a ela o que era o prédio. Disse que pertencia a uma faculdade e que dali saíam pessoas formadas para estudar lá em baixo. Até que ele passou bem perto, a faculdade tem mesmo outras unidades mais em baixo. O que me chamou a atenção não foi exatamente o conteúdo de sua fala, foi o tom de sua voz e o olhar da menina. Estavam a poucos metros do portão da faculdade, mas olhavam e falavam sobre ela como se fosse um mundo distante, intangível, pelo qual jamais teriam a pretensão de buscar. E não tem mesmo.

O que torna uma instituição de ensino tão distante de uma criança e do pai desta criança? Por que o conhecimento não pode permear os seus sonhos e tornar-se um caminho designável a seus destinos? E por que nos permitimos separar pessoas em grupos, privilegiando alguns e explorando outros e, ainda, por que teimamos em chamar isto de destino?

Se eu soubesse a resposta eu não estaria colocando aqui estas indagações, não quero fazer retórica, quero que alguém me responda, ou faça mais perguntas, ou apenas fale algo. A segregação não é exclusivamente determinada por quem detém o poder econômico, ela viaja entre nós como um vento incansável que sopra nossa cultura e nossos valores; e ouvimos este vento de forma distorcida, sem saber de onde veio e nunca para onde irá. Por muitos anos da minha vida pensei que a forma correta de avariar esse sistema fosse se rasgar e se excluir, cursei uma universidade pública, onde pobres eram uma minoria quase extinta, principalmente nos cursos diurnos. Sempre havia sentido o cheiro da segregação financeira, cultural e ideológica do mundo e lá dentro, senti o gosto. Nunca fui do tipo que abaixa a cabeça, muito pelo contrário, fui prepotente e sobrevivi. Mas sempre pensei que a forma de conhecer e transformar o mundo dos “excluídos” seria sendo para sempre um deles, afinal, nasci em uma periferia, cresci e moro até hoje em um bairro distante, ainda ando de ônibus lotado, enfim... o grande problema, que entendi a poucos dias, pouco depois de ver aquela garotinha, foi que se eu tomo partido e vivo de um lado, em um grupo, é porque estou legitimando a existência e a separação dos grupos. Se a pergunta é, de que lado estou? Estou tentando fazer que não existam lados. 

Posso me permitir alguns prazeres que provavelmente famílias sustentadas por apenas um salário mínimo não consigam, não sou rico, ainda. Entendo claramente que as pessoas que vivem no mundo distante o tornam e o querem distante daquela menininha, mas entendo também que as pessoas que vivem com ela e vêem aquele mundo como distante se encolhem e o deixam ficar cada vez mais longe, e quanto mais espaços vazios, mais rápido e letal o vento sopra suas verdades separatistas.    

Sinto muito em dizer que sempre estive errado em condenar pessoas que exibiam roupas de marca, ternos, sempre tive uma reação enérgica com estes movimentos, mas sempre me incluí no grupo que exibia esta raiva. Sempre achei correto os que exibiam sua dor e sua incapacidade diante das injustiças sociais. Sempre vi os governos darem esmola e serem aplaudidos de pé. Aplaude-se a qualquer coisa de pé. Eu estava errado. Tudo isto sempre reforçou a separação, intensificou os contrastes; e são destes contrastes que nascem os sentimentos de não pertencimento, e quando não pertencemos, podemos aniquilar. E se você separa a humanidade em grupos você diz que a guerra é um fator natural a ela.

Somos todos feitos da mesma essência, efêmera, frágil e infinitamente bela. Decompomos os nossos corpos com o tempo para que possamos alimentar a nossa alma e recheá-la de sabedoria e benevolência. Não creio que tenhamos obtido sucesso. Por isto tantos morrem, por isto tantos matam. Por isto tantos nunca sabem de nada. Era para sermos um só, mas somos tantos, tão desconhecidos, tão desrespeitados; e o culpado disso tudo, é o vento que sopramos silenciosamente aos ouvidos da humanidade ensinando a ela que o egoísmo é o caminho para o sucesso.

Eu só queria entender o que nos permite ser assim tão frágeis e ao mesmo tempo tão destruidores. Eu só queria entender porque minhas palavras amam tanto ser escritas, talvez para que se tornem um vento contrário às atitudes que tomamos. Não há erro em ser feliz, mas o há em não enxergarmos a felicidade no outro. Tudo nos é permitido, cabe a cada um de nós escolher e tornar a vida um processo real e eterno.

Não pertenço ao grupo dos ricos ou ao grupo dos pobres, nem ao dos ignorantes ou dos intelectuais. Me recuso a aceitar os grupos. Cada um, em qualquer lugar, pode tudo o que quiser. Acredite, ame, viva. Somos um pequeno pedaço de uma humanidade inteira, somos semente que pode soprar o amor, e não as mentiras.


Trajano Amaral

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Movimento Involuntário

Há poucas horas atrás eu estava em um ponto de ônibus e vi um homem sendo arrastada por outro. na verdade, o vi sendo empurrado, caindo e, em seguida, sendo arrastado para uma parte alta da calçada, onde ele, como deve ter pensado o arrastador, dormiria. Cheguei a abrir minha mochila para pegar o celular e chamar a polícia, mas... não me pareceu uma violência excessiva. pensei em duas hipóteses, a primeira é que se tratava do funcionário, ou dono, de algum estabelecimento comercial que o tirava de lá. A segunda é que ele estivesse correndo perigo de ser atropelado e por isto foi arrastado para ver ser resolveria dormir.  Ele não dormiu. Voltou para a esquina por onde o vi chegar sendo arrastado. 

Um homem arrasta o outro pela rua e o máximo que fizemos, nós que estávamos olhando,  foi especular sobre o que estava acontecendo e, ainda, chegarmos todos a um comum  e silencioso acordo de que aquele que o trazia à força estava fazendo a coisa certa. Demos a ele a razão sem ao menos nos esforçarmos para ver o outro lado. De certa forma, é fácil de se justificar; por que daríamos razão a um morador de rua bêbado? Porque na verdade não damos razões, observamos calados e nos resguardamos em nossos mundos cercados de silêncios efêmeros. Você tira de um homem a sua casa, sua família, seu trabalho, sua comida, sua dignidade e dá a ele o direito de ser arrastado e jogado como um saco de lixo em uma esquina. 

Aprendemos a guardar as pessoas, mas não as guardamos em casa. E o mais interessantes é que todos concordamos com isto. 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

PS


Esta semana estive por quase duas horas na recepção do HPS de Juiz de Fora, nosso mais, posso dizer, importante hospital de pronto socorro. Enfiei um fiapo de madeira em minha perna no ensaio durante a manhã e não consegui tirar, como à noite estava doendo muito fui lá para dar uma olhada. Estava vazio, bem mais do que eu esperava, contudo jamais pensaria que a saúde pública está melhorando. Tive que esperar porque o médico que me atenderia estava em uma cirurgia; me designaram um cirurgião pra retirar uma farpa de madeira. Fiquei pensando sobre os milhares de casos em que uma cirurgia torna-se imprescindível para a vida de alguém e esta pessoa não consegue ser atendida.

Alguns minutos após a minha chegada, reparei em um senhor mal vestido, roupas sujas, trazido por um homem novo, de companhia. Não pareciam amigos. Este senhor estava cobrindo o olho direito com a mão e me pareceu bem desesperado. Sei que um simples cisco no olho incomodaria muito mais que a farpa em minha perna. Estávamos em um hospital de emergência, qualquer uma das pessoas que estava esperando podia deixar que ele fosse atendido primeiro, nenhum de nós aparentava gravidade, mas pelo que percebi não queriam nem fazer ficha para ele por falta de documentos. Contudo, lhe foi agendada uma consulta, provavelmente não seria com um especialista. O homem resolveu esperar.

Sentado duas fileiras de cadeira atrás de mim ele comeu algo que estava embrulhado e amassado em um saco plástico, pareceu bem faminto. Após certo tempo, o homem começou a andar de um lado par ao outro, isto não pareceu incomodar os funcionários do local, creio que estejam habituados a pessoas sofrendo dor e sem controle, cumprem bem o protocolo. O homem desistiu de esperar e se foi, esbravejando...

O homem desistiu

Talvez desistir tenha se tornado um verbo muito comum à sociedade moderna, apressada, de olhos fechados à realidade social. Desistir de um atendimento, desistir de um desejo, desistir da própria vida. Ninguém o impediu. Eu não o impedi. Era como se ele não fosse um de nós, devido ao seu comportamento e suas roupas. É o que sempre fazemos, nos incluímos em grupos e fechamos nossos olhares. Antes de escrever este artigo, já pensei várias vezes em fazer um plano de saúde. Encontramos saídas para os nossos problemas, como se a individualidade solucionasse alguma coisa em nossas vidas. Um ato e um pensamento egoístas; como todos nós. Até quando vai continuar sendo assim? Até quando vamos tentar olhar para nossos umbigos e fingir que não existe vida em nossa volta e que precisamos dessa vida para sobreviver? Até quando eu, até quando você, não vamos fazer nada? É como se não vivêssemos.

Fui atendido por um cirurgião antes mesmo das outras pessoas que aguardavam ser atendidas por um clínico geral. Gastei uma consulta do SUS para ele olhar a minha perna e dizer que não compensava abrir, que o meu organismo iria expelir em alguns dias o pequeno fiapo de madeira (não que eu não tivesse direito a esta consulta, ou que eu atenha desperdiçado). Quantas pessoas não gastam suas vidas em esperas infinitas e nunca conseguem ser respeitadas e morrem em corredores? Porque permitimos que o mundo funcione desta forma?

A humanidade precisa muito de um PS, de um pronto socorro para o seu egoísmo e sua inação. Temos o direito sobre o destino em nossas mãos; é só usar.