Quando eu era adolescente, cheguei a trabalhar com serviços
pesados, daqueles que geram calos na palma das mãos. Ainda na adolescência, fiz
treinamento de artes marciais, daqueles que geram calos do outro lado das mãos.
Elas se tornaram fortes para pegar e para bater. No entanto, sempre tive mãos
suaves e delicadas e sempre toquei as pessoas com gentileza e harmonia. O que
sempre determinou a forma como toco as pessoas não foi a força das mãos e sim a
intenção do toque. Isso me deu mãos suaves e sensíveis, mãos delicadas.
A capacidade de ser rude pode estar presente e exposta nas
mãos, na forma como tocam, nas intenções quando tocam; mas o guia as mãos, é o
que está dentro de nós, o que é anterior ao contato e para onde estamos olhando
quando o fazemos. Uma força que nos impulsiona a nos sobrepormos ao outro, como
se isto fosse nos dar algo de bom ou pelo menos lucrativo, ou ainda, provar
nossa superioridade de alguma maneira, então tocamos com força e brutalidade. Também
olhamos o contato após o outro, como se o nosso ato, do início ao fim fosse o
elemento mais importante, minha ação, atravessando o outro em busca da sua
conclusão, como se não houvesse ninguém ali, pelo menos ninguém com importância
real. Confuso? Parece filosofia densa? É, parece mesmo. É que com as palavras
também podemos ser rudes, atravessar o outro como se não quiséssemos tocá-lo e
ficar nele, e fazemos isto quase todas as vezes.
É preciso muito pouco para que usemos palavras de
agressividade ou tom de voz agressivo. E é preciso somente este pouco para que
muitos agridam com mãos, paus, pedras, armas. Às vezes é preciso menos do que
esse pouco para que tudo isso aconteça. E muitos se ofendem, e muitos se
machucam, e muitos morrem. E o ódio se torna a força motriz de nossas relações.
Forçar, bater, tomar, impor. Subjugar o outro em função do que nem é realmente
um desejo do eu. E aprendemos a ouvir
apenas o que queremos ouvir, da forma como queremos ouvir. Não importa o que o
outro diga, antes dele começar, já sabemos o que dirá, já temos nossas reações
pré-estabelecidas e o ódio e a agressividade já começam a ferver o nosso
sangue. Somos escravos perfeitos do
ódio. E odiamos quando o ódio nos fere. E odiamos quando o nosso ódio não fere.
E odiamos se não sentirmos ódio porque somos fracos. E odiamos.
Uma amiga há poucos dias me contou uma história, sobre alguém
que a maltratou emocionalmente. Ela sentiu raiva, quis revidar, se vingar, e me
perguntou o que eu achava disso. Devolvi a pergunta, querendo saber se a
vingança seria algo que ela realmente queria fazer, ou seriam ações e tempo
gasto dedicados à pessoa, ou seja, ainda estar perto. E concluí dizendo que se
ela olhasse pelo ponto de vista do outro e o quisesse feliz, entenderia tudo
que ele havia feito e não sentiria mais essa vontade. Acho que ela entendeu. É preciso
priorizarmos a felicidade, não importa quem seja o dono dessa felicidade. Se
nós, ou se o outro. O que importa e deve importar é que sempre haja alguém
feliz, porque pessoas felizes fazem mais pessoas felizes e o contágio seria
incontrolável.
E se é para sermos felizes e fazemos felizes, podemos tocar
com delicadeza, com as mãos ou com as palavras. Trabalho com pessoas, lido com
pessoas todos os dias e sempre me dizem que sou muito gentil. E por que eu não
seria? Pois quando o sou, os outros também são gentis comigo e todos estamos
sempre bem. Não é que eu tenha uma alma sublimada, é só pensar, é uma troca, e
quero receber tudo que me faça bem, e quero que me toquem com suavidade. É só
uma troca. Se trocarmos ódio, receberemos ódio; se trocarmos delicadeza,
receberemos delicadeza.
Por isto, tenho mãos e palavras delicadas. E isso não me faz
deixar de ter mãos e palavras fortes. Por isto tenho felicidade e não ódio. Por
isto, peço a você com humilde delicadeza que compartilhe essas palavras com
alguém.
Obrigado pela leitura.
Fiquem em paz.
Trajano Amaral