Eu não irei morrer quando parar de respirar ou o meu coração
parar de bater. Minhas palavras, minhas criações e minha arte ficarão pelo
mundo afora, sem dono e sem fim. A pessoa que fui ficará gravada em muitas
outras pessoas, mostrando o melhor de mim e também o pior de mim. Morremos quando
desistimos de ser quem nós realmente somos e aceitamos ficar quietos no mesmo lugar
para que o equilíbrio do que nos esmaga continue intacto. É, às vezes parece
que muitas coisas serão perdidas e que haverá prejuízo demais. Está certo,
haverá mesmo. Mas então, quando eu decidi não morrer? Decidi quando era criança
e as histórias chegavam a mim faltando o fim e eu não deixava de ler, eu
imaginava um. Decidi não morrer quando descobri que ia perder pessoas ao longo
do caminho, e perderia a maior parte delas, mas mesmo assim continuei e não
soube ficar parado. Decidi não morrer quando me impuseram o que não fazer, e
tudo o que fiz foi ser eu; mesmo que ficasse sem dinheiro, sem apoio, sem
carinho, sem aprovação, sem amigos. Mesmo que não sobrasse nada ali, ainda
sobraria eu, um eu intacto e que continuava a caminhar. Decidi não morrer
quando decidi aprender a perder, porque perder é a lição mais importante em
nossas vidas. Sai o que está ali, enferrujado, entra o novo, pois haverá espaço
para o novo. Só aprendemos e crescemos verdadeiramente na perda. A perda é
fundamental, pois quando jovens, tudo o que temos nos foi dado por alguém e por
uma sociedade. Só encontraremos o nosso eu verdadeiro quando perdermos tudo o
que nos deram e ficarmos vazios, sozinhos, com nós mesmos. É nesse momento que
podemos ver a nossa alma e ver o quanto ela é imortal. Pena que a maioria
prefere ficar no conforto de estar onde sempre esteve, como sempre esteve, pois
as perdas doem, doem muito e a dor nos torna fortes e sábios. Sim, sábios, pois
é preciso sabedoria e mansidão para passar por cima da dor sem se desesperar e
voltar para o local escondido onde sempre acreditamos que fosse confortável. Muitos
temem a perda, alguns por medo, outros por não serem capazes de entender que há
algo além do que é imposto, outros por egoísmos, pois não querem perder nada. Não
importa o motivo, importa é que quase todos ficam parados e inertes enquanto a
vida escorre de seus corpos, ou de seus corações, ou de seus cérebros. E estes,
já decidiram morrer. Já decidiram aceitar a morte imposta pelo bem do que lhes
foi ensinado desde que nasceram. Respeite, ame, admire, obedeça, acredite,
honre e muitos outros desígnios desse formato nos são ensinados, para que
saibamos tratar os que vieram antes de nós e, às vezes, que detêm o domínio
sobre nós, que seja legal, amoroso, ou de qualquer outra forma. Mas eu digo,
quer viver? Quer decidir não morrer? Se quer, a única forma de tratar o que
veio antes é perder o respeito, perder o amor, a admiração, a obediência, a fé
e parar de achar que honrar alguém é ser como essa pessoa quer que você seja. Perca
tudo e irá perceber que perdeu também as pessoas. E quando não houver mais
nada, haverá você. E se os que vieram antes quiserem amar você de verdade,
entenderão que devem desejar sua felicidade e que siga seu caminho, e se não
desejarem isto, não é porque são inconscientes, é porque são egoístas e já
estão mortos. E se os perder para sempre, aceite a perda e comece a encontrar você.
Ou já vai ter nascido morto e nunca sairá dessa condição. Vai machucar muito
tomar essa decisão. Mas o caminho deve ser este, ou ninguém nunca será livre
plenamente. Nunca haverá liberdade ou verdade em um mundo que nos prega no chão
e não quer nos deixar sair. Nascemos para ir e nos descobrir. E para ir, é
preciso deixar para trás todos os que querem ficar. Sim, você pode chorar, se
te fizer bem chore. Mas nunca volte ou desista, porque isto irá fazer com que o
choro seja eterno. Porque um dia irá entender que não existe mais você, que você
já se atolou no mesmo lugar e, com isto, que você já morreu. E quando perceber
isto, irá usar todas as suas forças para atolar todos à sua volta. E saberá que
as pessoas livres vão e, com isto, fará de tudo para que ninguém seja livre. Para
mim isso não é medo, isso é covardia e completa falta de humanidade. Pessoas assim
devem ser deixadas lá, pois perdê-las não é perder, é se livrar do que te mata.
Perdê-las é viver, é decidir não morrer. Sempre é uma escolha, para cada um de
nós, e se nos defendemos dizendo que não sabíamos o que escolher, há aí a
escolha de não ter aprendido a entender. Não existe inocência, existem
escolhas. Afaste-se das escolhas dos outros e viva a sua, mesmo que seja
preciso se ferir. Vai ser preciso muito esforço e muito trabalho, menos horas
de sono, menos amigos, menos conforto, menos segurança. Mas é um preço pequeno
para se pagar pela vida. Ou é isso, ou você vai estar morto, comendo a comida
dos mortos, morando ao lado deles, adorando os seus deuses, vivendo os seus
valores, recebendo deles tudo o que você precisa. É uma escolha. Sempre há
escolhas. Eu escolhi não morrer e nunca parei de perder e assumi todas as
perdas e paguei o preço. E viverei para sempre. Esse texto será lido depois que
o meu corpo se for. Porque eu encontrei o meu eu e o deixei viver. E isso nos
torna um caos para os que querem ficar atolados. E quer saber? Que se danem
perdidos no meu caos. E que se atolem ainda mais e fiquem mais longe de mim. Estou
vivo. Vivo para sempre. Esta é a minha escolha. E a sua, qual será? Viver ou
morrer agora? E se pensa que já decidiu morrer e não tem mais jeito. Sempre há
tempo. Sempre é possível escolher e sair daí. Perca. Perder é tudo o que você precisa
fazer para se livrar do que te mata. E mata por prazer. Então perca, porque
quando encontrar o seu eu, saberá que nada no mundo vale mais do que ele. E nesse
momento, entenderá que nunca perdeu nada. Entenderá que apenas se libertou. Então
perca, porque agora, perder é o único caminho para a liberdade e para a vida.