quarta-feira, 28 de março de 2018

Sobre o que “eu” quero e o princípio da maldade


Pensar que algo é errado e mesmo assim fazer ou aceitar porque isso trará benefícios, é o princípio de toda a maldade, crueldade e destruição na humanidade. Parece um pouco radical reduzir toda a destruição e miséria da humanidade em uma frase, mas é exatamente assim. Quando eu pratico, aceito ou permito que o individualismo – e nisto está a ideia de que preciso fazer as coisas e viver em função de benefícios próprios – começa a existir e nascer a maldade, como assim? É bem simples, todo crime, roubo, extorsão, ainda que pequeno ou em proporções imensas, nasce desse princípio de que farei algo para o meu benefício, ainda que eu ignore o que acho certo. Toda guerra, assassinato e destruição nasce do mesmo princípio. Cada pessoa que comete ou participa ou permite uma agressão, ainda que física, social, emocional, financeira e inúmeras outras, sabe, de alguma forma, que está transgredindo algo; contudo o princípio da maldade está ativo e, para essa pessoa, beneficiar o eu é mais importante do que ter princípios. Resultado de uma educação e cultura que valorizem o desenvolvimento sucesso individual, uma cultura que constrói e estimula a disputa e a competição, elegendo e afirmando que algumas pessoas são melhores que as outras. Então, uma única atitude pode ruir uma sociedade inteira.

Eu sei que falando assim tem uma cara de exagero, eu sei que você pode pensar e listar inúmeras vezes em que pensou em seu benefício próprio e, mesmo que tenha feito algo que não concordava tanto, não feriu ou tirou nada de ninguém. Sim, é verdade. A maioria das vezes é mesmo assim. Mas então não há problema nisso? Claro que há. Isso constrói valores, hábitos e códigos de conduta e pensamento. Constrói uma consciência coletiva alimentada pelo princípio do individualismo e, com isso, eu entendo que se eu tiro moedas de alguém porque acho que mereço mais, eu só não destruo com bobas um país inteiro para tirar dele toda riqueza que possui, porque eu não tenho poder para isso. Já que a ideia é a mesma. Eu posso tirar do outro o que acho que mereço mais. Sim, você pode me chamar de exagerado e até paranoico, mas acontece que as suas pequenas e “inocentes” ações egoístas não são o resultado, mas a raiz e o alimento de toda guerra e miséria que existe no mundo. Qualquer ato de desonestidade ou violação do outro, por menor que seja, alimenta e principia toda a destruição que existe no mundo.

Mas se a sociedade ensina-nos que o benefício individual ambicioso é o que nos faz crescer, como fazer então? Esse benefício faz um homem crescer subindo e esmagando outros, numa sociedade que não cresce de verdade, apenas enterra a maioria dos seus para que pareça estar melhor. Se eu negar toda individualidade de benefícios e começar a acreditar que todas as minhas ações têm um efeito construtivo ou destrutivo no mundo, em muito pouco tempo, perceberei que meus hábitos irão mudar e que a distinção entre o que eu quero exclusivamente para mim e o que eu devo fazer vai ficar mais fácil. E se nesse momento você ainda discorda de mim, olhe para o mundo, assista jornais, leia sobre miséria e atrocidades e, depois disso, se pergunte: a humanidade está mesmo no caminho certo? Será que um maluco que diz que cada atitude minha contribui com o todo e gera a miséria está errado? Mas se está devo pensar que se sempre fomos assim, e está tudo tão ruim, será que e verdade?
Cada pensamento seu, atitude, contribui com o que o mundo é, com como as pessoas vivem. As ações de maior proporção são alimentadas pelas ações simples e cotidianas, que são a raiz de um resultado catastrófico. É preciso pensar diferente e ensinar alguém a fazê-lo para que algo, em algum momento, saia do lugar. Ou vai chegar o dia em que algumas pessoas vão pensar que destruir o mundo inteiro para um benefício próprio é algo legítimo. E destruirão. E não haverá mais eu ou você. Não haverá nada.

Não seja o princípio de todo o mal. Não seja a raiz que alimenta a miséria e a destruição. Pense, pelo menos uma vez por dia, que “o que eu quero” não é o mais importante.