Passou casualmente pela timeline
do meu facebook uma foto de uma pessoa, foto simples feita por ela. Muitos estavam
elogiando e ela agradecia. Como nós não nos conhecíamos de verdade, e não faço
parte de seu círculo ou sequer os conheço direito, resolvi elogiar de forma
privada, sutil, fiz inbox. Ela agradeceu, conversamos um pouco; avisei que não
estava dando em cima e ela disse que sabia, já que é casada, fato que eu
desconhecia pois não havia lido seu perfil, e nunca o fiz depois disso. Não me
interessam as informações compartilhadas ou os rituais de discrição que somos
obrigados a aprender e obedecer. Posso elogiar quem eu quiser e a pessoa pode
receber isso e pronto. Não precisamos de caminhos ou permissões para tal. Mas então,
por que fiz inbox? Primeiro porque eu não sabia como a palavra “bonita” seria
recebida pela dona da foto, segundo porque eu não sabia como a recepção da dona
da foto seria recebida pelo seu círculo social, terceiro, porque eu não sabia
mais em que mundo eu vivo por ter de me preocupar com as duas coisas
anteriores.
Conheço muitas pessoas bonitas,
outras feias, outras esquisitas, e se disser “bonita” sou tarado, “feia” sou
indelicado e “esquisita” sou preconceituoso. Se não disser nada, sou frio e não
interajo com as pessoas. Pelo bem das redes sociais que exploram a exposição despretensiosa
dando a todos o direito sobre o que é dos outros. Gostamos de ser vistos, isto
é um fato para muitos, é para mim. Contudo não uso minha rede social de forma
pessoal, apenas profissional porque não acho que ali alguém me veja de verdade.
Mas gosto de ver, sou um bom espiador (o Word não aceita a palavra, acho que
prefere Voyeur – é, prefere). Contudo, não leio perfis, não fuço os
álbuns; às vezes, em poucos momentos, para e observo fotos ou frases postadas. Só
o momento basta, só o momento já me diz muito sobre a pessoa. Um sorriso, uma
palavra, um detalhe às vezes escondido. Não é preciso tentar entender a vida de
alguém se posso olhar um minuto e pronto, talvez não veja nunca mais, talvez nunca
nos falemos. Mas por que preciso ver tudo ou falar com todos sobre tudo o tempo
inteiro? Gosto de momentos, nuances, detalhes, gosto do não compromisso do
conhecimento pleno ou das conversas diárias, gosto de olhar quando quiser
olhar, de falar quando houverem palavras.
Olhei uma foto, parei para olhar
de novo, a foto me presenteou com palavras, devolvi palavras em forma de elogio
à pessoa da foto que agora aparece verde no meu chat (coisas da web 2.0); disse
que faria uma crônica, mas não sei se isto é uma, pelo menos tá no título que
é. Posso dizer o que eu quiser assim como as pessoas podem ser bonitas, feias
ou esquisitas sem que alguém precise dizer isto a elas, porque o que é dito não
muda o que realmente está lá. Mas pode mudar como as pessoas vêm você,
principalmente se não estiver na regrinha que elas seguem de como se portar. Há
um livro? Ou há apenas a verdade sobre as relações sociais sendo passadas boca
a boca (boca a boca não, beijo só pode no namoro, ou em festas, ou por putaria,
por vontade simples não). Existem tantas regras e tão pouco relacionamento
social verdadeiro. Existem tantas fotos e tão pouca admiração verdadeira,
existem tantas palavras e quase nada é ouvido, até porque quase nada de verdade
é dito. Olhei a foto, olharei outras, rabisquei minhas palavras, um obrigado e
um enorme beijo à Pessoa da foto. Me deve um café (ou um suco porque não todo
café) uma tarde dessas... isso pode nas regras sociais?
Eu posso.