quarta-feira, 28 de março de 2018

Sobre o que “eu” quero e o princípio da maldade


Pensar que algo é errado e mesmo assim fazer ou aceitar porque isso trará benefícios, é o princípio de toda a maldade, crueldade e destruição na humanidade. Parece um pouco radical reduzir toda a destruição e miséria da humanidade em uma frase, mas é exatamente assim. Quando eu pratico, aceito ou permito que o individualismo – e nisto está a ideia de que preciso fazer as coisas e viver em função de benefícios próprios – começa a existir e nascer a maldade, como assim? É bem simples, todo crime, roubo, extorsão, ainda que pequeno ou em proporções imensas, nasce desse princípio de que farei algo para o meu benefício, ainda que eu ignore o que acho certo. Toda guerra, assassinato e destruição nasce do mesmo princípio. Cada pessoa que comete ou participa ou permite uma agressão, ainda que física, social, emocional, financeira e inúmeras outras, sabe, de alguma forma, que está transgredindo algo; contudo o princípio da maldade está ativo e, para essa pessoa, beneficiar o eu é mais importante do que ter princípios. Resultado de uma educação e cultura que valorizem o desenvolvimento sucesso individual, uma cultura que constrói e estimula a disputa e a competição, elegendo e afirmando que algumas pessoas são melhores que as outras. Então, uma única atitude pode ruir uma sociedade inteira.

Eu sei que falando assim tem uma cara de exagero, eu sei que você pode pensar e listar inúmeras vezes em que pensou em seu benefício próprio e, mesmo que tenha feito algo que não concordava tanto, não feriu ou tirou nada de ninguém. Sim, é verdade. A maioria das vezes é mesmo assim. Mas então não há problema nisso? Claro que há. Isso constrói valores, hábitos e códigos de conduta e pensamento. Constrói uma consciência coletiva alimentada pelo princípio do individualismo e, com isso, eu entendo que se eu tiro moedas de alguém porque acho que mereço mais, eu só não destruo com bobas um país inteiro para tirar dele toda riqueza que possui, porque eu não tenho poder para isso. Já que a ideia é a mesma. Eu posso tirar do outro o que acho que mereço mais. Sim, você pode me chamar de exagerado e até paranoico, mas acontece que as suas pequenas e “inocentes” ações egoístas não são o resultado, mas a raiz e o alimento de toda guerra e miséria que existe no mundo. Qualquer ato de desonestidade ou violação do outro, por menor que seja, alimenta e principia toda a destruição que existe no mundo.

Mas se a sociedade ensina-nos que o benefício individual ambicioso é o que nos faz crescer, como fazer então? Esse benefício faz um homem crescer subindo e esmagando outros, numa sociedade que não cresce de verdade, apenas enterra a maioria dos seus para que pareça estar melhor. Se eu negar toda individualidade de benefícios e começar a acreditar que todas as minhas ações têm um efeito construtivo ou destrutivo no mundo, em muito pouco tempo, perceberei que meus hábitos irão mudar e que a distinção entre o que eu quero exclusivamente para mim e o que eu devo fazer vai ficar mais fácil. E se nesse momento você ainda discorda de mim, olhe para o mundo, assista jornais, leia sobre miséria e atrocidades e, depois disso, se pergunte: a humanidade está mesmo no caminho certo? Será que um maluco que diz que cada atitude minha contribui com o todo e gera a miséria está errado? Mas se está devo pensar que se sempre fomos assim, e está tudo tão ruim, será que e verdade?
Cada pensamento seu, atitude, contribui com o que o mundo é, com como as pessoas vivem. As ações de maior proporção são alimentadas pelas ações simples e cotidianas, que são a raiz de um resultado catastrófico. É preciso pensar diferente e ensinar alguém a fazê-lo para que algo, em algum momento, saia do lugar. Ou vai chegar o dia em que algumas pessoas vão pensar que destruir o mundo inteiro para um benefício próprio é algo legítimo. E destruirão. E não haverá mais eu ou você. Não haverá nada.

Não seja o princípio de todo o mal. Não seja a raiz que alimenta a miséria e a destruição. Pense, pelo menos uma vez por dia, que “o que eu quero” não é o mais importante.

sábado, 9 de janeiro de 2016

o não eu

Guerra se faz com barreiras. Ouvi isso hoje. Quando eu coloco barreiras e fico dentro, o que está dentro serve e o que está fora está errado. Assim, eu posso me dar ao direito de desejar destruir o que está fora, ou seja, tudo o que é diferente de mim, ou seja, tudo que não sou eu. Ver o outro como algo que não serve é uma violência imensa e extremamente agressiva. Acusar, julgar, maltratar é tudo porque somos incapazes de aceitar o outro no que nós não somos. E talvez não sejamos por escolha ou porque não saibamos o que ser ou o que não ser. E é tão só viver dentro de uma barreira chamada “eu e apenas eu” onde não cabe mais nada, e, olhando para fora, vejo todos os outros como algo errado pois não sou eu. Mas então por que viver com outras pessoas se tudo que quero é transformá-las no que eu quero que sejam? Por que não as desenho e convivo com os desenhos? Ou por que não vivo apenas com os espelhos vendo apenas a minha imagem e ouvindo a minha voz? Você suportaria isso? Viver sem o outro sempre? Se não, por que então quer que todos sejam o que você é?

Aceitar a diferença e o espaço do outro é o único caminho para a paz e a felicidade. Encontre na sua mente as pessoas que você mais odeia, mais tem aversão. Elas já devem ter vindo à sua mente nesse momento. Agora passe um bom tempo com elas aí dentro, veja os motivos dela como se você fosse ela, não sobre o seu ponto de vista. Encontre as verdades dessa pessoa, os caminhos que ela trilhou, os sentimentos que ela tem. Aprenda algo com essa pessoa, encontre o lado bom no seu comportamento, admire a beleza nessa pessoa, ainda que pareça impossível ver isso, busque até ver. Busque que verá. Porque há, e se não houver, veja pelos seus olhos e coloque beleza naquela pessoa, como ela é. Não que a pessoa não possa aprender e mudar e melhorar ou evoluir. Todos devemos, mas aprender significa ouvir. Ouvir significa aceitar. Aceitar significa amar. Amar significa dar ao outro. Dar ao outro significa crescer. Crescer nos leva à felicidade. A felicidade verdadeira é compartilhada. Se compartilhada ela torna feliz o outro. Se o outro é feliz há a paz. Se há a paz você nunca mais se sentirá sozinho porque não haverão mais barreiras que nunca te protegeram. Elas apenas te prenderam longe da felicidade. Então, aquela pessoa que te irrita o tempo todo, que não sai da sua cabeça, e que te causa um sofrimento horrível... ame-a, aceite-a e todo o seu sofrimento irá acabar, e talvez o dela também.


O eu só serve se sabe receber. Ou nos prenderemos entre espelhos quebrados com nossas imagens partidas que nos cortarão por toda a eternidade. Pare de olhar para o outro como se fosse você quebrado. Olhe para ele como inteiro e ganhe algo dele. Seu mundo se tornará muito melhor. Se você tem raiva de mim, me dê um abraço. Talvez eu não mereça. Mas não faça por mim, faça pelo seu bem estar, pela sua paz. Talvez você se faça feliz. Talvez você me faça feliz. Talvez nós dois felizes não precisemos mais de raiva entre nós. Estou aberto aos abraços. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

muralhas

Às vezes existem muralhas que se constroem em nossa frente e nos impedem de prosseguir, talvez para sempre. Na maioria das vezes essas muralhas são pessoas. Eu mesmo já construí e fui muralhas na minha própria vida. Me machuquei muito para aprender a não ser. E nessas feridas eu entendi o mais importante: por maior que seja a minha muralha, por maior que seja a pessoa sustentando essa muralha, todas elas sangram. E se sangram, é porque podem ser feridas.

Somos educados em uma cultura egoísta e aniquiladora, intencionada apenas em fazer com que todos sejam iguais, limitados a pensar como iguais, a desejar a igualdade padronizada e, a impedir o mudança e a revolução, e para isso as pessoas se torna muralhas e nos cercam e nos prendem fora do caminho que devemos ou desejamos seguir. Se as muralhas sempre ficarem de pé elas vão impedir que a vida mude e a destruição à nossa volta só irá aumentar e se aglomerar em nossa alma. É claro que as muralhas são sempre maiores que nós, pois estão apoiadas em milênios de certezas e convicções, alimentados por milhares de indivíduos que não pensam livremente, são simplesmente conduzidos por um fluxo que sequer conhecem. As muralhas são enormes. São totalmente capazes de nos bater e nos machucar. Mas também podemos bater e sangrar e rasgar as muralhas. Se não pudermos pular sobre elas ou dar a volta, que as machuquemos, ou aceitemos ficar à sombra delas até nos tornarmos uma extensão e também sermos uma muralha ao novo e diferente. É uma decisão simples, dolorosa, mas simples. E quando o medo acaba o mundo fica melhor.

É claro que todos nós fomos educados por essa cultura destruidora e também construímos muralhas para nós mesmos. E nesse caso é preciso fazer sangrar a nós mesmos. Não há droga, terapia ou deus que substitua um bom rasgo no ego em função da liberdade. Destruamo-nos para sermos livres. Percamos, para vencer. E quando não formos mais muralhas, teremos a coragem e a força necessária para ferir quem se torne um impedimento à nossa vida. Sangremos os nossos medos e as nossas destruições, sangremos tudo o que impede a nossa liberdade. Todo sangue é válido pela liberdade. Porque as muralhas à sua frente sangram a sua alma todos os dias. E se a alma já sangra, que sangrem as muralhas.

A liberdade é o caminho mais belo em nossa vida. Ela cura todas as doenças e medos e todo o resto é mentira. Só há liberdade quando sabemos viver por nós e pelo outro, sem ego e também sem medo.


Seja livre ou seja muralha. A liberdade é inevitável, as muralhas sangram.  

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

raízes e vento

A vida acaba quando plantamos nossos pés como se fossem raízes. Tudo passa a não sair do lugar e o que há de mais belo em nós acaba. Sucumbimos ao lugar e às pessoas e, inteligentemente aprendemos que precisamos nos formar em alguma coisa, ter alguma carreira, conhecer alguém, conseguir algum lugar para morar, ter algum carro, ou mais de um, formar algum tipo de família. E assim veneramos o aqui e as pessoas que nos fazem não evoluir, que estão aqui. E ficamos ao seu lado. E esperançosamente sonhamos para que o aqui se torne um lugar melhor. E um dia seremos iguais ao lugar, e a individualidade que havia em nós será apagada e enraizada junto com nossos pés fincados no chão. E para nos defender existirão famílias, deuses, rodas, amigos, emprego, salário, casa, escola, crenças e todas as belezas do lugar. E tudo isso nos deixará tranquilos. Aprisionadamente tranquilos em nossos leitos de descanso onde a vida passa enquanto curtimos pacatamente o ficar aqui agarrados a algo que mal sabemos nomear. Agarrados a ‘alguma’ coisa.

Deveríamos nos agarrar ao vento, mas ele passa por nossas mãos sem que possamos prendê-lo a nós. Deveríamos morar nas estradas, mas elas não são lugares para ficar e sim para ir e não sabemos estabelecer casas ali, ou melhor, viver sem as casas. Deveríamos nos cobrir de palavras porque as palavras passam, mas mesmo assim são eternas e se guardam na memória e no todo, onde a vida realmente existe. Deveríamos afundar as nossas raízes em nossos sonhos e nunca mais sair de lá, mesmo que eles nos levem para o infinito. E será quente, e será frio, e fará sol, chuva, neve. Mas sempre haverá para onde ir, como o vento que sempre vai e as palavras que sempre são ditas.

Ir é como criar. Ficar é como repetir e copiar. E há os que acreditam que tudo já foi criado e agora só nos resta repetir e viver a vida que nos permitem viver, sempre aqui, sempre ‘alguma’ vida que alguém vai nos proporcionar de alguma forma para sermos felizes de alguma maneira sonhando algum sonho que não se pode realizar, mas de alguma forma, nos conformaremos com alguma coisa um dia e seremos resignados e teremos nossa alma tranquila na cadeira de algum psicólogo que nos ensinará de alguma forma que temos que entender o mundo à nossa volta, como ele é bom e como nós devemos nos adaptar a ele, entendê-lo e amá-lo como algum único mundo possível.

O mundo que preciso é feito de ar, volátil demais para que as raízes se prendam, a não ser que elas aprendam a se prender no vento ou no rabo de um cometa. E que eu morra em terra estranha no meio de gente estranha. Porque saberei que morri indo, porque saberei que nunca fui escravizado pela calmaria que o medo nos conta como escolha real e verdadeira. Tudo o que preciso pode ser feito de palavras e amor e palavras e amor mudam todos os dias, se tornando mais intensos, ou não. Mas podendo tudo, podendo o infinito, vivendo na eternidade, sem medo de viver ou morrer. Porque quem vai não morre nunca e quem sem enraíza não vive.


Quero me desapegar do tempo e do lugar porque eles sequer existem. Quero me apegar apenas à arte que tenho. Quero me apegar apenas aos sorrisos que me fazem bem e levá-los comigo para onde eu for. Preciso ir, não posso ficar aqui para sempre. Até porque a eternidade é muito pouco tempo para mim. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

quando morremos

Eu não irei morrer quando parar de respirar ou o meu coração parar de bater. Minhas palavras, minhas criações e minha arte ficarão pelo mundo afora, sem dono e sem fim. A pessoa que fui ficará gravada em muitas outras pessoas, mostrando o melhor de mim e também o pior de mim. Morremos quando desistimos de ser quem nós realmente somos e aceitamos ficar quietos no mesmo lugar para que o equilíbrio do que nos esmaga continue intacto. É, às vezes parece que muitas coisas serão perdidas e que haverá prejuízo demais. Está certo, haverá mesmo. Mas então, quando eu decidi não morrer? Decidi quando era criança e as histórias chegavam a mim faltando o fim e eu não deixava de ler, eu imaginava um. Decidi não morrer quando descobri que ia perder pessoas ao longo do caminho, e perderia a maior parte delas, mas mesmo assim continuei e não soube ficar parado. Decidi não morrer quando me impuseram o que não fazer, e tudo o que fiz foi ser eu; mesmo que ficasse sem dinheiro, sem apoio, sem carinho, sem aprovação, sem amigos. Mesmo que não sobrasse nada ali, ainda sobraria eu, um eu intacto e que continuava a caminhar. Decidi não morrer quando decidi aprender a perder, porque perder é a lição mais importante em nossas vidas. Sai o que está ali, enferrujado, entra o novo, pois haverá espaço para o novo. Só aprendemos e crescemos verdadeiramente na perda. A perda é fundamental, pois quando jovens, tudo o que temos nos foi dado por alguém e por uma sociedade. Só encontraremos o nosso eu verdadeiro quando perdermos tudo o que nos deram e ficarmos vazios, sozinhos, com nós mesmos. É nesse momento que podemos ver a nossa alma e ver o quanto ela é imortal. Pena que a maioria prefere ficar no conforto de estar onde sempre esteve, como sempre esteve, pois as perdas doem, doem muito e a dor nos torna fortes e sábios. Sim, sábios, pois é preciso sabedoria e mansidão para passar por cima da dor sem se desesperar e voltar para o local escondido onde sempre acreditamos que fosse confortável. Muitos temem a perda, alguns por medo, outros por não serem capazes de entender que há algo além do que é imposto, outros por egoísmos, pois não querem perder nada. Não importa o motivo, importa é que quase todos ficam parados e inertes enquanto a vida escorre de seus corpos, ou de seus corações, ou de seus cérebros. E estes, já decidiram morrer. Já decidiram aceitar a morte imposta pelo bem do que lhes foi ensinado desde que nasceram. Respeite, ame, admire, obedeça, acredite, honre e muitos outros desígnios desse formato nos são ensinados, para que saibamos tratar os que vieram antes de nós e, às vezes, que detêm o domínio sobre nós, que seja legal, amoroso, ou de qualquer outra forma. Mas eu digo, quer viver? Quer decidir não morrer? Se quer, a única forma de tratar o que veio antes é perder o respeito, perder o amor, a admiração, a obediência, a fé e parar de achar que honrar alguém é ser como essa pessoa quer que você seja. Perca tudo e irá perceber que perdeu também as pessoas. E quando não houver mais nada, haverá você. E se os que vieram antes quiserem amar você de verdade, entenderão que devem desejar sua felicidade e que siga seu caminho, e se não desejarem isto, não é porque são inconscientes, é porque são egoístas e já estão mortos. E se os perder para sempre, aceite a perda e comece a encontrar você. Ou já vai ter nascido morto e nunca sairá dessa condição. Vai machucar muito tomar essa decisão. Mas o caminho deve ser este, ou ninguém nunca será livre plenamente. Nunca haverá liberdade ou verdade em um mundo que nos prega no chão e não quer nos deixar sair. Nascemos para ir e nos descobrir. E para ir, é preciso deixar para trás todos os que querem ficar. Sim, você pode chorar, se te fizer bem chore. Mas nunca volte ou desista, porque isto irá fazer com que o choro seja eterno. Porque um dia irá entender que não existe mais você, que você já se atolou no mesmo lugar e, com isto, que você já morreu. E quando perceber isto, irá usar todas as suas forças para atolar todos à sua volta. E saberá que as pessoas livres vão e, com isto, fará de tudo para que ninguém seja livre. Para mim isso não é medo, isso é covardia e completa falta de humanidade. Pessoas assim devem ser deixadas lá, pois perdê-las não é perder, é se livrar do que te mata. Perdê-las é viver, é decidir não morrer. Sempre é uma escolha, para cada um de nós, e se nos defendemos dizendo que não sabíamos o que escolher, há aí a escolha de não ter aprendido a entender. Não existe inocência, existem escolhas. Afaste-se das escolhas dos outros e viva a sua, mesmo que seja preciso se ferir. Vai ser preciso muito esforço e muito trabalho, menos horas de sono, menos amigos, menos conforto, menos segurança. Mas é um preço pequeno para se pagar pela vida. Ou é isso, ou você vai estar morto, comendo a comida dos mortos, morando ao lado deles, adorando os seus deuses, vivendo os seus valores, recebendo deles tudo o que você precisa. É uma escolha. Sempre há escolhas. Eu escolhi não morrer e nunca parei de perder e assumi todas as perdas e paguei o preço. E viverei para sempre. Esse texto será lido depois que o meu corpo se for. Porque eu encontrei o meu eu e o deixei viver. E isso nos torna um caos para os que querem ficar atolados. E quer saber? Que se danem perdidos no meu caos. E que se atolem ainda mais e fiquem mais longe de mim. Estou vivo. Vivo para sempre. Esta é a minha escolha. E a sua, qual será? Viver ou morrer agora? E se pensa que já decidiu morrer e não tem mais jeito. Sempre há tempo. Sempre é possível escolher e sair daí. Perca. Perder é tudo o que você precisa fazer para se livrar do que te mata. E mata por prazer. Então perca, porque quando encontrar o seu eu, saberá que nada no mundo vale mais do que ele. E nesse momento, entenderá que nunca perdeu nada. Entenderá que apenas se libertou. Então perca, porque agora, perder é o único caminho para a liberdade e para a vida. 

domingo, 30 de agosto de 2015

o que eu não sei

Eu sou um homem do conhecimento, descobri isso ainda criança quando comecei a questionar os dogmas e as verdades que me ensinavam. A cada passo em minha vida, saber e entender se tornavam cada vez mais importantes. Confesso que rotulei e defini muitas coisas ao meu inteiro egoísmo. Entendo que tentei por muitos anos ver o mundo a partir das minhas fontes crescentes de conhecimento. Vi muitas coisas e aprendi muito neste caminho, contudo, sempre havia algo a aprender. Passei por teatro e literatura (que faço até hoje e são minhas mais fortes bases), estudei o pensamento religioso, o corpo e o movimento, cinema, culturas midiáticas e tantas coisas que seria desnecessário enumerar. Há pouco tempo comecei a estudar de verdade filosofia porque queria conversar sobre filosofia com uma pessoa especial para mim. Queria instruí-la na filosofia, pois sei que ela será grande nessa área. Então, era preciso estudar. E foi a primeira vez que disse ‘eu não sei’ sem me importar com isto.

Para ilustrar o meu texto vou utilizar uma história antiga da filosofia chinesa, escrita por Zhuangzi, logo em seguida um comentário retirado do livro de Gilberto Antônio Silva ‘Os Caminhos do Taoismo’
Um homem chamado Nanjung Chu procurou Laozi na esperança de encontrar respostas às suas preocupações. Ao se aproximar, Laozi falou:
– Por que me procurou com toda essa multidão de gente?
Ele se virou para trás para ver que multidão havia, mas nada viu.

[Essa história é muito interessante por ser a ancestral do conto Zen da xícara vazia, que todo mundo conhece. A multidão a que se refere Laozi é o conjunto de conceitos, velhas ideias, certo e errado, vida e morte, preconceitos e outros que carregamos aonde vamos. Ao buscar novas ideias, devemos nos afastar desta “multidão” que nos segue aonde quer que vamos.]

Não há como saber sem não saber. Quando adquirimos um conhecimento e um conjunto de hábitos culturais, sejam eles intelectualizados ou simplesmente oriundos do dia a dia, desenvolvemos um campo de visão e entendimento limitado. A partir daí, tudo deve caber nos degraus do nosso conhecimento fragmentado e limitado, como todo conhecimento o é. E se ficarmos estacionados ali criaremos raízes cheias de certezas e preconceitos e determinações de futuro e de como todos devem ser. Até que saberemos como todos são e poderemos rotular qualquer um à nossa volta. E em breve os olhos estarão cerrados, apenas ouvindo os gritos vindo de dentro, cheios de medo de saber o que não está ali, gritos de horror. E estaremos cegos pelo resto de nossas vidas, dando voltas em volta de nós mesmos, sem nenhum lugar para ir. E não aprenderemos mais nada, pois tudo deve ser medido através do que já sabemos.

A única forma de saber é não saber. Quando existir um campo de visão [e ele sempre existirá] entenda que ele é pequeno e frágil. Entenda que ele é tão fragmentado que cabe nele apenas uma porção ínfima da verdade. Então, nesse momento, olha fora do seu campo de visão e não saiba nada. Pois assim verá o que não está nos seu limitado conhecimento e, vendo isto, sem preconceitos ou medos ou determinações de certo e errado, você poderá aprender mais alguma coisa. E a cada cosa aprendida, nosso campo de visão aumenta e se diversifica. Só assim se pode aprender de verdade alguma coisa. Não há como aprender o que já sabemos ou cabe no nosso conhecimento habitual. O não saber, o desconhecido, esses são os melhores elementos para um crescente aprendizado.
Tire o seu ‘eu’ do jogo e olhe o outro e o mundo fora de você. Entenda o que puder entender. Aceite o que não conseguir compreender e caminhe perto para se tornar alguém com mais capacidade de compreensão. Sinta medo, e quando sentir, saiba que o desconhecido está ali e se aproxime e sinta o seu cheiro. Só aprende quem não sabe, e quem acredita saber sobre tudo já está imerso em uma ignorância imensurável.

Eu não sei praticamente nada. Por isso estou vivo e aprendendo. Sentirei medo e insegurança. E quando o mundo parecer um inferno seu saída, essa será minha grande lição de aprendizado.


Obrigado a você que me ensinou a ‘não saber’ todas as respostas. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

Não. Não sou como os que vieram antes de mim. Não que eu esteja menosprezando sua cultura, seus feitos e suas construções. Mas vi o mundo de uma forma diferente e quis estar nele de um jeito diferente para que ele se tornasse outro. Mudanças são necessárias e imprescindíveis à evolução, mesmo que sejam mudanças erradas, mas é que se tudo continuar no lugar, a vida para, e com a vida parada, fazer guerras e matar se torna justificável. Não sou como os que vieram antes de mim e espero que os que venham depois não sejam como eu. Sou a favor das mudanças e dos novos caminhos, mesmo que não sejam conhecidos, na verdade, os caminhos desconhecidos são os únicos que ensinam algo. O resto, já conhecemos.

Vou ilustrar o texto com a música “Como Nossos Pais” utilizando alguns trechos para colorir a condução do que vou falar. Mudanças, grades, medo e estagnação sempre fizeram parte de nosso sistema social. O padrão é as pessoas quererem viver de forma padronizada, sem mudanças, com a sensação de que isto traz conforto e segurança. Por que temos essa concepção?

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens...

Eles venceram e o sinal está fechado. Quem venceu? Quem fechou o sinal? O poder econômico que impõe a forma de consumo, ou o poder militar que ameaça as vidas ou o poder midiático que guia as cabeças e pensamentos sem que os indivíduos percebam, ou ainda poder da fé cega e preconceituosa que nos faz acreditar que alguém irá guiar nossos destinos e se estamos onde estamos é porque a divindade queria assim, ou deixou ser assim. Quem é o poder?

A questão toda está em eu pensar se há alguém que mereça o poder de conduzir a minha vida. Se há alguém por quem eu vou deixar o meu verdadeiro eu, aquele que gritou lá dentro e me ensinaram que ele deveria ser calado, e claro, para não perder o mundo à minha volta eu calo esse eu. Eles venceram? Sim, eles venceram porque permiti que vencessem, porque concordo com eles.

É assim que você faz quando o mundo conduz os seus pensamentos e os seus desejos. Para que eles vençam deve haver algo morto em você, mas não são eles que matam, é você que mata. Porque você é igual a eles, faz parte deles. Seus pensamentos, seus valores são os mesmos deles. Valores. O que são os valores? Por que não acreditamos mais neles?

Caráter. Quem é você? No que acredita? É capaz de ter seus ideais em você, seguros e lutar por eles? É capaz de aceitar a liberdade do outro, seja ele quem ele for? Se existe isso e existe alguma verdade em você, você tem caráter, se não, não há nada além de uma personalidade criada.

Dignidade. Vou viver a vida que eu quero viver. Acreditar no que preciso acreditar. Amar do jeito que quiser amar. Não vou tirar nada de ninguém. Não vou deixar que ninguém tire de mim. Assumir que sou forte. Assumir que sou fraco. Que acerto, que erro. Não rasteje por migalhas. Não aceite migalhas. Viva a vida que quer viver. E se não deixarem, tenha honra.

Honra. Se há um ideal aí dentro. Acredite nele e morra por ele e com ele ainda aí. Não trapaceie, não roube, não maltrate, não desista de ser quem você é, isso é o mais importante na sua vida, na verdade, isso é a sua vida, sem isso, não haverá honra e você estará morto. E a maioria das pessoas vende barato a sua honra, vende por um pouco de dinheiro, vende por imagem e status, priorizando o que vão pensar dela, vende por comodismo. Se há honra, você é quem você é, faz o que precisa fazer, vive como quer viver e não maltrata ninguém. Se não há isso, não há honra, e sem honra, você já está morto.
Coragem. Para haver honra é preciso haver coragem. E o que é a coragem? É ter medo todos os dias, e sentindo esse medo, não parar. Coragem é deixar a sua honra viver. É preciso coragem para olhar nos olhos de todos e ser sempre você. E mais do que tudo, é preciso ter coragem para mudar você e ser outra pessoa. Não desista sendo o que querem. Morra sendo você, porque assim, não haverá medo de morrer.

Isso não é um tratado moral ou de mudança de valores. Isso é o que sinto agora e um dia isso pode ter mudado de alguma forma e espero que mude. Só nunca vou deixar que eles vençam e nunca serei um deles. Serei sempre eu. Morrerei sendo eu. Porque assim todos os dias terão valido apena.

Hoje eu sei que quem me deu a ideia e
De uma nova consciência e juventude
Tá em casa, guardado por Deus
Contando vil metal...  

Uma nova consciência e juventude. Sempre busquei nova consciência. Sempre quis mudar e aprender e crescer e me tornar outro. Conheci muitos mundos, muitas pessoas, grandes pessoas. Sempre quis encontrar pessoas com mais conhecimento que eu para me ensinar algo. Foi então que encontrei uma pequena garota que nunca teve a intenção de me ensinar nada e com quem nunca tive a intenção de aprender. E, sem querer, começamos a aprender infinitamente um com o outro. Me senti agitado, animado, mais jovem, mais vivo. Nunca aprendi tanto na minha vida como agora, quando aprendi a ouvir o outro como alguém mais importante do que eu. O outro é o meu conhecimento, porque ele tem tudo o que eu não sei. Eu vi tantos mundos que me tornei um outro eu.

Mas há pessoas que contam o vil metal, dinheiro? Poder? Medo? Status? Acho que tudo cabe ali, na palavra metal. A imagem é você sentado no sofá contando seus lucros, sejam quais forem, financeiros ou ideológicos. E pensando assim, só será bem sucedido no padrão do mundo em que vivemos, se viver com ele. Caso você fuja desse mundo convencional, ele o considerará mal sucedido, fracassado, um problema e tentará aniquilar você. E vai haver um dia em que todos contarão o vil metal, ou com você, ou contra você. A questão é, você quer mudar e ser outro e ter tudo o que precisa ou quer contar o metal com eles e ser só mais um, como todos, obedecendo todos?

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem...

O novo sempre vem. Sim, você pode viver em seu conforto e nunca lutar por nada e nunca criar nada. Parecerá bem, parecerá feliz. Parecera confortável, tão confortável que quererá que nada saia do lugar. Quererá até que o outro e o diferente acabem e não existam mais. Você contará o metal e terá nele o seu único valor. A mídia e o status vão mandar em você. E ficará no passado com medo do futuro, com medo do novo, com medo de tudo que te fará bem e fará você crescer. E um dia, você irá querer que nada mude.

O novo sempre vem. E o mundo vai mudar um dia. E você não terá feito parte dessa mudança. Você terá combatido e lutado contra essa mudança. E a mudança virá e sua vida terá sido ultrapassada e você terá sido o problema que foi superado pela evolução.

Seja o novo. Mude e antes de qualquer coisa, torne-se novo e torne-se alguém melhor. Mais forte, mais corajoso, mais digno, mais honrado. Construa algo. Construa você. Irá doer e irão tentar parar você. Siga passo a passo. O que importa não é o acúmulo de valores superficiais. O que importa é a liberdade, a sua e a do outro. Liberdade requer sacrifício. Liberdade é tudo o que importa para ser feliz. Só as pessoas livres são felizes. Você vai perder muitas coisas. Mas as perdas são apenas mais espaço livre para acrescentarmos coisas novas que nos mudam e nos tornam outras pessoas.


Seja livre. Seja feliz.