terça-feira, 27 de outubro de 2015

muralhas

Às vezes existem muralhas que se constroem em nossa frente e nos impedem de prosseguir, talvez para sempre. Na maioria das vezes essas muralhas são pessoas. Eu mesmo já construí e fui muralhas na minha própria vida. Me machuquei muito para aprender a não ser. E nessas feridas eu entendi o mais importante: por maior que seja a minha muralha, por maior que seja a pessoa sustentando essa muralha, todas elas sangram. E se sangram, é porque podem ser feridas.

Somos educados em uma cultura egoísta e aniquiladora, intencionada apenas em fazer com que todos sejam iguais, limitados a pensar como iguais, a desejar a igualdade padronizada e, a impedir o mudança e a revolução, e para isso as pessoas se torna muralhas e nos cercam e nos prendem fora do caminho que devemos ou desejamos seguir. Se as muralhas sempre ficarem de pé elas vão impedir que a vida mude e a destruição à nossa volta só irá aumentar e se aglomerar em nossa alma. É claro que as muralhas são sempre maiores que nós, pois estão apoiadas em milênios de certezas e convicções, alimentados por milhares de indivíduos que não pensam livremente, são simplesmente conduzidos por um fluxo que sequer conhecem. As muralhas são enormes. São totalmente capazes de nos bater e nos machucar. Mas também podemos bater e sangrar e rasgar as muralhas. Se não pudermos pular sobre elas ou dar a volta, que as machuquemos, ou aceitemos ficar à sombra delas até nos tornarmos uma extensão e também sermos uma muralha ao novo e diferente. É uma decisão simples, dolorosa, mas simples. E quando o medo acaba o mundo fica melhor.

É claro que todos nós fomos educados por essa cultura destruidora e também construímos muralhas para nós mesmos. E nesse caso é preciso fazer sangrar a nós mesmos. Não há droga, terapia ou deus que substitua um bom rasgo no ego em função da liberdade. Destruamo-nos para sermos livres. Percamos, para vencer. E quando não formos mais muralhas, teremos a coragem e a força necessária para ferir quem se torne um impedimento à nossa vida. Sangremos os nossos medos e as nossas destruições, sangremos tudo o que impede a nossa liberdade. Todo sangue é válido pela liberdade. Porque as muralhas à sua frente sangram a sua alma todos os dias. E se a alma já sangra, que sangrem as muralhas.

A liberdade é o caminho mais belo em nossa vida. Ela cura todas as doenças e medos e todo o resto é mentira. Só há liberdade quando sabemos viver por nós e pelo outro, sem ego e também sem medo.


Seja livre ou seja muralha. A liberdade é inevitável, as muralhas sangram.  

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

raízes e vento

A vida acaba quando plantamos nossos pés como se fossem raízes. Tudo passa a não sair do lugar e o que há de mais belo em nós acaba. Sucumbimos ao lugar e às pessoas e, inteligentemente aprendemos que precisamos nos formar em alguma coisa, ter alguma carreira, conhecer alguém, conseguir algum lugar para morar, ter algum carro, ou mais de um, formar algum tipo de família. E assim veneramos o aqui e as pessoas que nos fazem não evoluir, que estão aqui. E ficamos ao seu lado. E esperançosamente sonhamos para que o aqui se torne um lugar melhor. E um dia seremos iguais ao lugar, e a individualidade que havia em nós será apagada e enraizada junto com nossos pés fincados no chão. E para nos defender existirão famílias, deuses, rodas, amigos, emprego, salário, casa, escola, crenças e todas as belezas do lugar. E tudo isso nos deixará tranquilos. Aprisionadamente tranquilos em nossos leitos de descanso onde a vida passa enquanto curtimos pacatamente o ficar aqui agarrados a algo que mal sabemos nomear. Agarrados a ‘alguma’ coisa.

Deveríamos nos agarrar ao vento, mas ele passa por nossas mãos sem que possamos prendê-lo a nós. Deveríamos morar nas estradas, mas elas não são lugares para ficar e sim para ir e não sabemos estabelecer casas ali, ou melhor, viver sem as casas. Deveríamos nos cobrir de palavras porque as palavras passam, mas mesmo assim são eternas e se guardam na memória e no todo, onde a vida realmente existe. Deveríamos afundar as nossas raízes em nossos sonhos e nunca mais sair de lá, mesmo que eles nos levem para o infinito. E será quente, e será frio, e fará sol, chuva, neve. Mas sempre haverá para onde ir, como o vento que sempre vai e as palavras que sempre são ditas.

Ir é como criar. Ficar é como repetir e copiar. E há os que acreditam que tudo já foi criado e agora só nos resta repetir e viver a vida que nos permitem viver, sempre aqui, sempre ‘alguma’ vida que alguém vai nos proporcionar de alguma forma para sermos felizes de alguma maneira sonhando algum sonho que não se pode realizar, mas de alguma forma, nos conformaremos com alguma coisa um dia e seremos resignados e teremos nossa alma tranquila na cadeira de algum psicólogo que nos ensinará de alguma forma que temos que entender o mundo à nossa volta, como ele é bom e como nós devemos nos adaptar a ele, entendê-lo e amá-lo como algum único mundo possível.

O mundo que preciso é feito de ar, volátil demais para que as raízes se prendam, a não ser que elas aprendam a se prender no vento ou no rabo de um cometa. E que eu morra em terra estranha no meio de gente estranha. Porque saberei que morri indo, porque saberei que nunca fui escravizado pela calmaria que o medo nos conta como escolha real e verdadeira. Tudo o que preciso pode ser feito de palavras e amor e palavras e amor mudam todos os dias, se tornando mais intensos, ou não. Mas podendo tudo, podendo o infinito, vivendo na eternidade, sem medo de viver ou morrer. Porque quem vai não morre nunca e quem sem enraíza não vive.


Quero me desapegar do tempo e do lugar porque eles sequer existem. Quero me apegar apenas à arte que tenho. Quero me apegar apenas aos sorrisos que me fazem bem e levá-los comigo para onde eu for. Preciso ir, não posso ficar aqui para sempre. Até porque a eternidade é muito pouco tempo para mim. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

quando morremos

Eu não irei morrer quando parar de respirar ou o meu coração parar de bater. Minhas palavras, minhas criações e minha arte ficarão pelo mundo afora, sem dono e sem fim. A pessoa que fui ficará gravada em muitas outras pessoas, mostrando o melhor de mim e também o pior de mim. Morremos quando desistimos de ser quem nós realmente somos e aceitamos ficar quietos no mesmo lugar para que o equilíbrio do que nos esmaga continue intacto. É, às vezes parece que muitas coisas serão perdidas e que haverá prejuízo demais. Está certo, haverá mesmo. Mas então, quando eu decidi não morrer? Decidi quando era criança e as histórias chegavam a mim faltando o fim e eu não deixava de ler, eu imaginava um. Decidi não morrer quando descobri que ia perder pessoas ao longo do caminho, e perderia a maior parte delas, mas mesmo assim continuei e não soube ficar parado. Decidi não morrer quando me impuseram o que não fazer, e tudo o que fiz foi ser eu; mesmo que ficasse sem dinheiro, sem apoio, sem carinho, sem aprovação, sem amigos. Mesmo que não sobrasse nada ali, ainda sobraria eu, um eu intacto e que continuava a caminhar. Decidi não morrer quando decidi aprender a perder, porque perder é a lição mais importante em nossas vidas. Sai o que está ali, enferrujado, entra o novo, pois haverá espaço para o novo. Só aprendemos e crescemos verdadeiramente na perda. A perda é fundamental, pois quando jovens, tudo o que temos nos foi dado por alguém e por uma sociedade. Só encontraremos o nosso eu verdadeiro quando perdermos tudo o que nos deram e ficarmos vazios, sozinhos, com nós mesmos. É nesse momento que podemos ver a nossa alma e ver o quanto ela é imortal. Pena que a maioria prefere ficar no conforto de estar onde sempre esteve, como sempre esteve, pois as perdas doem, doem muito e a dor nos torna fortes e sábios. Sim, sábios, pois é preciso sabedoria e mansidão para passar por cima da dor sem se desesperar e voltar para o local escondido onde sempre acreditamos que fosse confortável. Muitos temem a perda, alguns por medo, outros por não serem capazes de entender que há algo além do que é imposto, outros por egoísmos, pois não querem perder nada. Não importa o motivo, importa é que quase todos ficam parados e inertes enquanto a vida escorre de seus corpos, ou de seus corações, ou de seus cérebros. E estes, já decidiram morrer. Já decidiram aceitar a morte imposta pelo bem do que lhes foi ensinado desde que nasceram. Respeite, ame, admire, obedeça, acredite, honre e muitos outros desígnios desse formato nos são ensinados, para que saibamos tratar os que vieram antes de nós e, às vezes, que detêm o domínio sobre nós, que seja legal, amoroso, ou de qualquer outra forma. Mas eu digo, quer viver? Quer decidir não morrer? Se quer, a única forma de tratar o que veio antes é perder o respeito, perder o amor, a admiração, a obediência, a fé e parar de achar que honrar alguém é ser como essa pessoa quer que você seja. Perca tudo e irá perceber que perdeu também as pessoas. E quando não houver mais nada, haverá você. E se os que vieram antes quiserem amar você de verdade, entenderão que devem desejar sua felicidade e que siga seu caminho, e se não desejarem isto, não é porque são inconscientes, é porque são egoístas e já estão mortos. E se os perder para sempre, aceite a perda e comece a encontrar você. Ou já vai ter nascido morto e nunca sairá dessa condição. Vai machucar muito tomar essa decisão. Mas o caminho deve ser este, ou ninguém nunca será livre plenamente. Nunca haverá liberdade ou verdade em um mundo que nos prega no chão e não quer nos deixar sair. Nascemos para ir e nos descobrir. E para ir, é preciso deixar para trás todos os que querem ficar. Sim, você pode chorar, se te fizer bem chore. Mas nunca volte ou desista, porque isto irá fazer com que o choro seja eterno. Porque um dia irá entender que não existe mais você, que você já se atolou no mesmo lugar e, com isto, que você já morreu. E quando perceber isto, irá usar todas as suas forças para atolar todos à sua volta. E saberá que as pessoas livres vão e, com isto, fará de tudo para que ninguém seja livre. Para mim isso não é medo, isso é covardia e completa falta de humanidade. Pessoas assim devem ser deixadas lá, pois perdê-las não é perder, é se livrar do que te mata. Perdê-las é viver, é decidir não morrer. Sempre é uma escolha, para cada um de nós, e se nos defendemos dizendo que não sabíamos o que escolher, há aí a escolha de não ter aprendido a entender. Não existe inocência, existem escolhas. Afaste-se das escolhas dos outros e viva a sua, mesmo que seja preciso se ferir. Vai ser preciso muito esforço e muito trabalho, menos horas de sono, menos amigos, menos conforto, menos segurança. Mas é um preço pequeno para se pagar pela vida. Ou é isso, ou você vai estar morto, comendo a comida dos mortos, morando ao lado deles, adorando os seus deuses, vivendo os seus valores, recebendo deles tudo o que você precisa. É uma escolha. Sempre há escolhas. Eu escolhi não morrer e nunca parei de perder e assumi todas as perdas e paguei o preço. E viverei para sempre. Esse texto será lido depois que o meu corpo se for. Porque eu encontrei o meu eu e o deixei viver. E isso nos torna um caos para os que querem ficar atolados. E quer saber? Que se danem perdidos no meu caos. E que se atolem ainda mais e fiquem mais longe de mim. Estou vivo. Vivo para sempre. Esta é a minha escolha. E a sua, qual será? Viver ou morrer agora? E se pensa que já decidiu morrer e não tem mais jeito. Sempre há tempo. Sempre é possível escolher e sair daí. Perca. Perder é tudo o que você precisa fazer para se livrar do que te mata. E mata por prazer. Então perca, porque quando encontrar o seu eu, saberá que nada no mundo vale mais do que ele. E nesse momento, entenderá que nunca perdeu nada. Entenderá que apenas se libertou. Então perca, porque agora, perder é o único caminho para a liberdade e para a vida. 

domingo, 30 de agosto de 2015

o que eu não sei

Eu sou um homem do conhecimento, descobri isso ainda criança quando comecei a questionar os dogmas e as verdades que me ensinavam. A cada passo em minha vida, saber e entender se tornavam cada vez mais importantes. Confesso que rotulei e defini muitas coisas ao meu inteiro egoísmo. Entendo que tentei por muitos anos ver o mundo a partir das minhas fontes crescentes de conhecimento. Vi muitas coisas e aprendi muito neste caminho, contudo, sempre havia algo a aprender. Passei por teatro e literatura (que faço até hoje e são minhas mais fortes bases), estudei o pensamento religioso, o corpo e o movimento, cinema, culturas midiáticas e tantas coisas que seria desnecessário enumerar. Há pouco tempo comecei a estudar de verdade filosofia porque queria conversar sobre filosofia com uma pessoa especial para mim. Queria instruí-la na filosofia, pois sei que ela será grande nessa área. Então, era preciso estudar. E foi a primeira vez que disse ‘eu não sei’ sem me importar com isto.

Para ilustrar o meu texto vou utilizar uma história antiga da filosofia chinesa, escrita por Zhuangzi, logo em seguida um comentário retirado do livro de Gilberto Antônio Silva ‘Os Caminhos do Taoismo’
Um homem chamado Nanjung Chu procurou Laozi na esperança de encontrar respostas às suas preocupações. Ao se aproximar, Laozi falou:
– Por que me procurou com toda essa multidão de gente?
Ele se virou para trás para ver que multidão havia, mas nada viu.

[Essa história é muito interessante por ser a ancestral do conto Zen da xícara vazia, que todo mundo conhece. A multidão a que se refere Laozi é o conjunto de conceitos, velhas ideias, certo e errado, vida e morte, preconceitos e outros que carregamos aonde vamos. Ao buscar novas ideias, devemos nos afastar desta “multidão” que nos segue aonde quer que vamos.]

Não há como saber sem não saber. Quando adquirimos um conhecimento e um conjunto de hábitos culturais, sejam eles intelectualizados ou simplesmente oriundos do dia a dia, desenvolvemos um campo de visão e entendimento limitado. A partir daí, tudo deve caber nos degraus do nosso conhecimento fragmentado e limitado, como todo conhecimento o é. E se ficarmos estacionados ali criaremos raízes cheias de certezas e preconceitos e determinações de futuro e de como todos devem ser. Até que saberemos como todos são e poderemos rotular qualquer um à nossa volta. E em breve os olhos estarão cerrados, apenas ouvindo os gritos vindo de dentro, cheios de medo de saber o que não está ali, gritos de horror. E estaremos cegos pelo resto de nossas vidas, dando voltas em volta de nós mesmos, sem nenhum lugar para ir. E não aprenderemos mais nada, pois tudo deve ser medido através do que já sabemos.

A única forma de saber é não saber. Quando existir um campo de visão [e ele sempre existirá] entenda que ele é pequeno e frágil. Entenda que ele é tão fragmentado que cabe nele apenas uma porção ínfima da verdade. Então, nesse momento, olha fora do seu campo de visão e não saiba nada. Pois assim verá o que não está nos seu limitado conhecimento e, vendo isto, sem preconceitos ou medos ou determinações de certo e errado, você poderá aprender mais alguma coisa. E a cada cosa aprendida, nosso campo de visão aumenta e se diversifica. Só assim se pode aprender de verdade alguma coisa. Não há como aprender o que já sabemos ou cabe no nosso conhecimento habitual. O não saber, o desconhecido, esses são os melhores elementos para um crescente aprendizado.
Tire o seu ‘eu’ do jogo e olhe o outro e o mundo fora de você. Entenda o que puder entender. Aceite o que não conseguir compreender e caminhe perto para se tornar alguém com mais capacidade de compreensão. Sinta medo, e quando sentir, saiba que o desconhecido está ali e se aproxime e sinta o seu cheiro. Só aprende quem não sabe, e quem acredita saber sobre tudo já está imerso em uma ignorância imensurável.

Eu não sei praticamente nada. Por isso estou vivo e aprendendo. Sentirei medo e insegurança. E quando o mundo parecer um inferno seu saída, essa será minha grande lição de aprendizado.


Obrigado a você que me ensinou a ‘não saber’ todas as respostas. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

Não. Não sou como os que vieram antes de mim. Não que eu esteja menosprezando sua cultura, seus feitos e suas construções. Mas vi o mundo de uma forma diferente e quis estar nele de um jeito diferente para que ele se tornasse outro. Mudanças são necessárias e imprescindíveis à evolução, mesmo que sejam mudanças erradas, mas é que se tudo continuar no lugar, a vida para, e com a vida parada, fazer guerras e matar se torna justificável. Não sou como os que vieram antes de mim e espero que os que venham depois não sejam como eu. Sou a favor das mudanças e dos novos caminhos, mesmo que não sejam conhecidos, na verdade, os caminhos desconhecidos são os únicos que ensinam algo. O resto, já conhecemos.

Vou ilustrar o texto com a música “Como Nossos Pais” utilizando alguns trechos para colorir a condução do que vou falar. Mudanças, grades, medo e estagnação sempre fizeram parte de nosso sistema social. O padrão é as pessoas quererem viver de forma padronizada, sem mudanças, com a sensação de que isto traz conforto e segurança. Por que temos essa concepção?

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens...

Eles venceram e o sinal está fechado. Quem venceu? Quem fechou o sinal? O poder econômico que impõe a forma de consumo, ou o poder militar que ameaça as vidas ou o poder midiático que guia as cabeças e pensamentos sem que os indivíduos percebam, ou ainda poder da fé cega e preconceituosa que nos faz acreditar que alguém irá guiar nossos destinos e se estamos onde estamos é porque a divindade queria assim, ou deixou ser assim. Quem é o poder?

A questão toda está em eu pensar se há alguém que mereça o poder de conduzir a minha vida. Se há alguém por quem eu vou deixar o meu verdadeiro eu, aquele que gritou lá dentro e me ensinaram que ele deveria ser calado, e claro, para não perder o mundo à minha volta eu calo esse eu. Eles venceram? Sim, eles venceram porque permiti que vencessem, porque concordo com eles.

É assim que você faz quando o mundo conduz os seus pensamentos e os seus desejos. Para que eles vençam deve haver algo morto em você, mas não são eles que matam, é você que mata. Porque você é igual a eles, faz parte deles. Seus pensamentos, seus valores são os mesmos deles. Valores. O que são os valores? Por que não acreditamos mais neles?

Caráter. Quem é você? No que acredita? É capaz de ter seus ideais em você, seguros e lutar por eles? É capaz de aceitar a liberdade do outro, seja ele quem ele for? Se existe isso e existe alguma verdade em você, você tem caráter, se não, não há nada além de uma personalidade criada.

Dignidade. Vou viver a vida que eu quero viver. Acreditar no que preciso acreditar. Amar do jeito que quiser amar. Não vou tirar nada de ninguém. Não vou deixar que ninguém tire de mim. Assumir que sou forte. Assumir que sou fraco. Que acerto, que erro. Não rasteje por migalhas. Não aceite migalhas. Viva a vida que quer viver. E se não deixarem, tenha honra.

Honra. Se há um ideal aí dentro. Acredite nele e morra por ele e com ele ainda aí. Não trapaceie, não roube, não maltrate, não desista de ser quem você é, isso é o mais importante na sua vida, na verdade, isso é a sua vida, sem isso, não haverá honra e você estará morto. E a maioria das pessoas vende barato a sua honra, vende por um pouco de dinheiro, vende por imagem e status, priorizando o que vão pensar dela, vende por comodismo. Se há honra, você é quem você é, faz o que precisa fazer, vive como quer viver e não maltrata ninguém. Se não há isso, não há honra, e sem honra, você já está morto.
Coragem. Para haver honra é preciso haver coragem. E o que é a coragem? É ter medo todos os dias, e sentindo esse medo, não parar. Coragem é deixar a sua honra viver. É preciso coragem para olhar nos olhos de todos e ser sempre você. E mais do que tudo, é preciso ter coragem para mudar você e ser outra pessoa. Não desista sendo o que querem. Morra sendo você, porque assim, não haverá medo de morrer.

Isso não é um tratado moral ou de mudança de valores. Isso é o que sinto agora e um dia isso pode ter mudado de alguma forma e espero que mude. Só nunca vou deixar que eles vençam e nunca serei um deles. Serei sempre eu. Morrerei sendo eu. Porque assim todos os dias terão valido apena.

Hoje eu sei que quem me deu a ideia e
De uma nova consciência e juventude
Tá em casa, guardado por Deus
Contando vil metal...  

Uma nova consciência e juventude. Sempre busquei nova consciência. Sempre quis mudar e aprender e crescer e me tornar outro. Conheci muitos mundos, muitas pessoas, grandes pessoas. Sempre quis encontrar pessoas com mais conhecimento que eu para me ensinar algo. Foi então que encontrei uma pequena garota que nunca teve a intenção de me ensinar nada e com quem nunca tive a intenção de aprender. E, sem querer, começamos a aprender infinitamente um com o outro. Me senti agitado, animado, mais jovem, mais vivo. Nunca aprendi tanto na minha vida como agora, quando aprendi a ouvir o outro como alguém mais importante do que eu. O outro é o meu conhecimento, porque ele tem tudo o que eu não sei. Eu vi tantos mundos que me tornei um outro eu.

Mas há pessoas que contam o vil metal, dinheiro? Poder? Medo? Status? Acho que tudo cabe ali, na palavra metal. A imagem é você sentado no sofá contando seus lucros, sejam quais forem, financeiros ou ideológicos. E pensando assim, só será bem sucedido no padrão do mundo em que vivemos, se viver com ele. Caso você fuja desse mundo convencional, ele o considerará mal sucedido, fracassado, um problema e tentará aniquilar você. E vai haver um dia em que todos contarão o vil metal, ou com você, ou contra você. A questão é, você quer mudar e ser outro e ter tudo o que precisa ou quer contar o metal com eles e ser só mais um, como todos, obedecendo todos?

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem...

O novo sempre vem. Sim, você pode viver em seu conforto e nunca lutar por nada e nunca criar nada. Parecerá bem, parecerá feliz. Parecera confortável, tão confortável que quererá que nada saia do lugar. Quererá até que o outro e o diferente acabem e não existam mais. Você contará o metal e terá nele o seu único valor. A mídia e o status vão mandar em você. E ficará no passado com medo do futuro, com medo do novo, com medo de tudo que te fará bem e fará você crescer. E um dia, você irá querer que nada mude.

O novo sempre vem. E o mundo vai mudar um dia. E você não terá feito parte dessa mudança. Você terá combatido e lutado contra essa mudança. E a mudança virá e sua vida terá sido ultrapassada e você terá sido o problema que foi superado pela evolução.

Seja o novo. Mude e antes de qualquer coisa, torne-se novo e torne-se alguém melhor. Mais forte, mais corajoso, mais digno, mais honrado. Construa algo. Construa você. Irá doer e irão tentar parar você. Siga passo a passo. O que importa não é o acúmulo de valores superficiais. O que importa é a liberdade, a sua e a do outro. Liberdade requer sacrifício. Liberdade é tudo o que importa para ser feliz. Só as pessoas livres são felizes. Você vai perder muitas coisas. Mas as perdas são apenas mais espaço livre para acrescentarmos coisas novas que nos mudam e nos tornam outras pessoas.


Seja livre. Seja feliz.  

sábado, 1 de agosto de 2015

trincheiras

Existem as guerras para que existam as trincheiras. Existem as trincheiras para que julguemos o medo como nosso maior aliado e protetor. E qual a maneira mais eficiente de produzir um bom medo? É simples. Pegue uma criança e conte a ela muitas mentiras sobre a liberdade, dizendo que ela é tentadora e a levará ao mau caminho. Ensine a rotular e julgar as pessoas pelo que vê e sabe delas superficialmente, olhar dentro é completamente abominável. Esses rótulos nasceram de dogmas criados pelos nossos ancestrais, os mesmos que criaram guerras e divisões de classes e divisões étnicas. Quando essa criança tiver dúvidas e souber perguntar, não responda, grite ou bata para que ela saiba que cometeu um erro. Perguntar? Não, ter dúvidas, ela não deve ter dúvidas sobre o que já está definido e é assim porque é. A tarefa vai ser dura, então peça ajuda à mídia e ao mercado, ensine a ela que deve ser rica e bem sucedida, que não é bela o suficiente como as da TV, mas deve se sentir superior. Faça-a querer comprar muito, muito mais do que precisa. Ensine-a usufruir dos amigos antes de descartar.  Não esqueça o mais importante. Todos são assim e pensam assim, e se ela for diferente, terá problemas e não será aceita, então, o mais importante, ensine a ela que a opinião dos outros a respeito dela é o que mais importa.

Feito isso ela crescerá atrás de trincheiras porque o mundo e os seus sentimentos são monstros imensuráveis tentando matá-la. A liberdade é a verdadeira merda na qual ela irá afundar. Os sentimentos que incitam à liberdade são a maior tentação de sua vida. Combata-os. É tudo que ela deve saber. Assim você a esconderá atrás de trincheiras que contam a ela o tempo todo que o medo a mantém viva, segura e feliz. E o mundo continuará o mesmo. E você sabe que dará esse medo a alguém porque ele é seu e seu mundo sempre foi olhando os sacos mortos das trincheiras.

Mas é que a lua está tão linda lá em cima que não consigo olhar os sacos. Tenho que sair para ir ver o luar.

Seja um guerreiro. Não se esconda atrás das trincheiras que não te protegem. Elas matam você. Elas sucumbem os seus desejos e os seus sentimentos e robotizam suas vontades e sua individualidade se torna um bem servido aos covardes. E você se torna covarde como eles. É hora de lutar de peito aberto em campo aberto, sob a luz da lua. É, os tiros passarão mais perto de você e te atingirão mais vezes e muito antes do que atingirão os outros. É, vou morrer primeiro, mas só porque estou vivo e livre. Estar lá, preso onde não existe nada, não serve para nada. Não tenha medo, ou melhor tenha. Todos temos. A questão é, o medo irá ser o nosso guia? O nosso senhor supremo? O medo irá reinar sobre nossos desejos até o ponto em que acreditemos desejar apenas aquilo que o medo ordena? Porque é o que vai acontecer com todos os corações que ficam escondidos apenas ouvindo os barulhos dos que são massacrados do outro lado das trincheiras. O medo tornará verdade em você todas as mentiras que você odiou um dia, e quando isto acontecer, você terá morrido e não existirá mais.

E sabe por que você só ouve o som das mortes e dos livres caindo? Porque eles são poucos e lutam praticamente sozinhos. E você não os acha corajosos. Você os acha loucos e burros e os abandona ao seu imperador, o senhor medo, senhor de todos os seus desejos. Enquanto uns poucos estão lá fora lutando por você. Não é que eu não sinta medo. Tenho os meus. O que não tenho são minhas trincheiras para me contar que o medo é o meu senhor. Não que eu não carregue alguns sacos comigo às vezes, mas eu os largo. Não há nada como lutar de braços abertos, sentimentos fervendo no peito, mãos e boca repletas de palavras e alma repleta de verdade. Sim, é com a verdade que se combate o medo. Grite a verdade, proteja-a, faça-a existir até que o medo acabe ou que ele mate você. Morra, mas morra livre com honra e com todos os seus sentimentos vivos dentro de você. Se houver amigos conta tamanha coragem vocês podem até vencer. Se não houver. Lute assim mesmo, mesmo que sozinho e morra. Sim, lute e morra. Mas nunca seja você a mão que mata a verdade e os seus sentimentos.

Abandone as trincheiras. Ali é lugar para mortos. Venha lutar. Vamos todos lutar, vencendo ou não. E toda vez que cairmos. Levantemos e lutemos mais uma vez. Abandone as trincheiras. Não deixe que o medo seja o seu senhor absoluto, pois um dia irá acreditar em tudo o que ele te conta. E quando isso acontecer, esse medo será seu e você irá dá-lo a alguém um dia, perpetuando a mesma história para sempre.

Quando sentirem medo do tamanho do seu coração ou da beleza das suas palavras, ou ainda, da vida que há na sua liberdade ou dos seus braços abertos dizendo ‘é isso que eu sou’, vão tentar parar você. Seu sensor de perigo será ligado. E você foi treinado para considerá-lo um elemento da sua prudência. E assim você começará a servir ao medo dizendo que está esperando tudo dar certo. Não, não faça isso. É suicídio. Mantenha os braços abertos e grite o mais alto que puder, mais alto do que gritam os seus adversários. Grite até que te ouçam, ou até que fujam, ou até que matem você. Mas morra com honra. Porque essa é a única coisa que os servidores do medo não fazem.
Lute. Não pare. Vencendo ou não. Nunca pare. É hora de acabarmos com o medo que aprisiona o mundo em trincheiras escuras e mesquinhas. Muitos ainda vão cair. Mas cairão vivos e felizes. Enquanto os servidores do medo lamentam tudo o que nunca foram. É melhor morrer em campo com um sorriso no rosto do que envelhecer psicótico sabendo quem você nunca foi. Sofrendo de dor por nada, por uma vida que você nunca viveu. Sabendo que suas mãos estão sujas por todos os sonhos e sentimentos que você matou; e primeiro serão os seus, e quando terminar com eles, começará a matar os dos outros à sua volta, para que sejam todos iguais a você. Morra pela verdade, não se torne um assassino da verdade.


É hora de lutar sob a luz da lua e não sob a escuridão das trincheiras. É hora de não ter nenhum senhor e lutar pela liberdade. Ela não rouba nada de você. Lute. Vença ou perca. Continue lutando sempre. E toda vez que se esconder para planejar o que fazer pensando no seu adversário, não estará lutando, estará com medo se escondendo em suas trincheiras e tornando-os mais importantes do que você e assumindo para si o senhor de todos eles, o medo. Só há uma verdadeira estratégia possível, braços abertas e gritando e vivendo a verdade e assumindo o peso e as feridas de todas as consequências, só assim os desejos não desaparecerão de dentro de você. Lute. Viva ou morra. Lutaremos um ao lado do outro. Esse é o meu desejo e é isso que grito enquanto tentam me aniquilar. Lute. Lutemos. E seremos muitos. E seremos um. E seremos liberdade. 

domingo, 12 de julho de 2015

mãos delicadas

Quando eu era adolescente, cheguei a trabalhar com serviços pesados, daqueles que geram calos na palma das mãos. Ainda na adolescência, fiz treinamento de artes marciais, daqueles que geram calos do outro lado das mãos. Elas se tornaram fortes para pegar e para bater. No entanto, sempre tive mãos suaves e delicadas e sempre toquei as pessoas com gentileza e harmonia. O que sempre determinou a forma como toco as pessoas não foi a força das mãos e sim a intenção do toque. Isso me deu mãos suaves e sensíveis, mãos delicadas.

A capacidade de ser rude pode estar presente e exposta nas mãos, na forma como tocam, nas intenções quando tocam; mas o guia as mãos, é o que está dentro de nós, o que é anterior ao contato e para onde estamos olhando quando o fazemos. Uma força que nos impulsiona a nos sobrepormos ao outro, como se isto fosse nos dar algo de bom ou pelo menos lucrativo, ou ainda, provar nossa superioridade de alguma maneira, então tocamos com força e brutalidade. Também olhamos o contato após o outro, como se o nosso ato, do início ao fim fosse o elemento mais importante, minha ação, atravessando o outro em busca da sua conclusão, como se não houvesse ninguém ali, pelo menos ninguém com importância real. Confuso? Parece filosofia densa? É, parece mesmo. É que com as palavras também podemos ser rudes, atravessar o outro como se não quiséssemos tocá-lo e ficar nele, e fazemos isto quase todas as vezes.

É preciso muito pouco para que usemos palavras de agressividade ou tom de voz agressivo. E é preciso somente este pouco para que muitos agridam com mãos, paus, pedras, armas. Às vezes é preciso menos do que esse pouco para que tudo isso aconteça. E muitos se ofendem, e muitos se machucam, e muitos morrem. E o ódio se torna a força motriz de nossas relações. Forçar, bater, tomar, impor. Subjugar o outro em função do que nem é realmente um desejo do eu.  E aprendemos a ouvir apenas o que queremos ouvir, da forma como queremos ouvir. Não importa o que o outro diga, antes dele começar, já sabemos o que dirá, já temos nossas reações pré-estabelecidas e o ódio e a agressividade já começam a ferver o nosso sangue.  Somos escravos perfeitos do ódio. E odiamos quando o ódio nos fere. E odiamos quando o nosso ódio não fere. E odiamos se não sentirmos ódio porque somos fracos. E odiamos.

Uma amiga há poucos dias me contou uma história, sobre alguém que a maltratou emocionalmente. Ela sentiu raiva, quis revidar, se vingar, e me perguntou o que eu achava disso. Devolvi a pergunta, querendo saber se a vingança seria algo que ela realmente queria fazer, ou seriam ações e tempo gasto dedicados à pessoa, ou seja, ainda estar perto. E concluí dizendo que se ela olhasse pelo ponto de vista do outro e o quisesse feliz, entenderia tudo que ele havia feito e não sentiria mais essa vontade. Acho que ela entendeu. É preciso priorizarmos a felicidade, não importa quem seja o dono dessa felicidade. Se nós, ou se o outro. O que importa e deve importar é que sempre haja alguém feliz, porque pessoas felizes fazem mais pessoas felizes e o contágio seria incontrolável.

E se é para sermos felizes e fazemos felizes, podemos tocar com delicadeza, com as mãos ou com as palavras. Trabalho com pessoas, lido com pessoas todos os dias e sempre me dizem que sou muito gentil. E por que eu não seria? Pois quando o sou, os outros também são gentis comigo e todos estamos sempre bem. Não é que eu tenha uma alma sublimada, é só pensar, é uma troca, e quero receber tudo que me faça bem, e quero que me toquem com suavidade. É só uma troca. Se trocarmos ódio, receberemos ódio; se trocarmos delicadeza, receberemos delicadeza.

Por isto, tenho mãos e palavras delicadas. E isso não me faz deixar de ter mãos e palavras fortes. Por isto tenho felicidade e não ódio. Por isto, peço a você com humilde delicadeza que compartilhe essas palavras com alguém.

Obrigado pela leitura.

Fiquem em paz.


Trajano Amaral   

domingo, 28 de junho de 2015

lâminas cegas

Hoje, quando eu acordei, havia tanto barulho no mundo que parecia que a agonia plena estava liberta. Tenho bons fones de ouvido e boa música no meu computador, e uma garrafa de água, e posso apenas não ouvir o que não interessa. É como se o ar fosse feito de lâminas, lâminas cegas que rasgam grosseiramente a pele e ficam grudadas nela, sangrando ódio e destruição. Odeia-se quem diz não e quem diz sim, e ainda mais quem não diz nada. Odeiam os gays, os héteros, os ricos, os pobres, os brancos, os negros, os orientais, os burros, os inteligentes; e esta lista pode se tornar infinita se eu não parar de enumerar. Pois não é isso que importa aqui agora.

Hoje quando eu acordei, os barulhos faziam nascer mais lâminas no ar. Moro em um pequeno quadrado preso a outros quadrados maiores, o meu não tem lâminas. Elas existem porque se aprendeu há tanto tempo a dividir o mundo e as pessoas em quadrados. Classifica-se por etnia, religião, gosto musical, posses financeiras e tantas coisas, que não sei mais entender onde foram parar as pessoas que estavam atrás dos rótulos e nomes dados a grupos, são nichos ou agrupamentos raivosos e medrosos atrás de paredes imbecis com um nome escrito, que não protegem, e sim segregam. Se você se interessa por uma pessoa do outro sexo é hétero, se se acaso interessar por uma do mesmo sexo é homo, e se não souber decidir não é livre, é bi. Quantos desejos não devem ficar aprisionados dentro das pessoas porque elas escolhem obedecer a uma classificação e param de sentir livremente? As lâminas cegas dividem tudo em tantos pedaços, que acabamos não sabendo em qual deles ficar e começamos a obedecer a voz imensa da multidão que nos classifica de tantas formas e nos joga de um quadrado pro outro, nos ferindo e guardando lâminas de ódio em nossa pele, cada dia mais lâminas, cada dia mais ódio, cada dia mais grupos para odiarem uns aos outros.

E onde fica a felicidade nisso tudo? Na esperança de um dia, talvez, quem sabe... lá longe, vou alcançar, chegarei lá e é só isso que importa. E claro. Nunca chegamos. Nos arrastamos em meio às lâminas e ficamos agarrados em quadrados muito pequenos e limitados, vislumbrando uma felicidade no futuro distante. E ela nunca chega nem chegará, porque a imaginamos como nunca foi e nunca será. Se não somos felizes, como podemos saber o que será a felicidade que perseguimos para um dia alcançar? Se não está feliz, como sabe o que precisa pra estar? E é nesse momento que vejo todos enquadrados em pequenas prisões, olhando para um longe imaginário e esperando que um dia algo o liberte dali, sem saber que está preso. E se paro de obedecer e as lâminas param de me tocar e posso andar livremente, sou gay pelo cachecol vermelho, sou tarado porque me permito chegar perto das pessoas e tocar nelas, sou vagabundo porque não vou me aposentar, sou drogado por causa do meu cabelo bagunçado e pra cima, sou bandido e pessoas correm de mim em passagens fechadas porque não me movimento de forma contida, ocupo espaço quando ando; e quando me conhecem apenas de nome me imaginam de uma forma tão diferente da que realmente sou, e quando me veem pessoalmente, me imaginam de uma forma mais diferente ainda. E temem quando digo que sou feliz em tudo que aconteça, e olha que aprendi isso com alguém que não faz isso. Mas claro, para eu ser feliz e sublimar as dores do mundo eu deveria usar roupas mais largas, cores pastel, falar devagar arrastando as vogais, como se estivesse numa onda zen, meio louco de alguma coisa. Pobres adoradores das imagens e dos estereótipos. Eu falo rápido, claro que falo, penso infinitamente mais rápido do que meu corpo e o vocabulário possam expressam, quando estou criando então, pareço transtornado. É, eu falo alto. Falo mesmo, gosto de ser ouvido, nasci pra isso.

A questão toda é, você nunca será feliz enquanto se permitir estar em algum quadrado, e sabe que está em porque vê outros e coloca as pessoas neles. Quem não é feliz se torna eficiente em roubar a felicidade dos outros. Arrancar as lâminas da pele irá doer, tem que doer, doeram para entrar. Ah, mas disseram que era o natural da vida. Pois é, era mentira, não era o natural. Foram enfiadas à força aí. E como arrancá-las? Tire suas classificações, goste de preto, de branco, de azul, de rosa; não tenha uma música preferida, não tenha uma comida preferida, varie, prove, conheça. Errar é a maior ferramenta de aprendizado que pode existir, e é libertadora do medo. Não teste só o que sabe que gosta ou quer, porque isso não é teste, é certeza. Testar é assumir não saber se quer ou não, e experimentar, e se gostar, ganhou algo, e se não gostar, aprendeu algo; e de ambas as formas, dá pra ser feliz. A cada dia nos são abertos inúmeros caminhos, e parece impossível decidir exatamente qual deles trilhar. Então experimente todos, e erre o tempo todo, e não sofra, seja feliz, porque depois de tanto experimentar, saberá todos os caminhos por onde não quer ir, e isto aumenta sua chance de acertar e ir por onde o seu coração realmente deseja. E por falar em coração e desejos, nossos corações e nossos desejos são manipulados desde que nascemos para que acreditemos gostar e querer coisas que nunca tivemos a opção de questionar. Então questione as suas certezas, desafie os desejos óbvios dentro de você. Experimente o que não gosta, vá pelo lado que não quer, nem que seja para conhecer, beije os feios, abrace os chatos, aprenda com os idiotas, ame os que nunca estiveram na sua lista, deseje fora de suas preferências, esqueça os seus gostos, os seus planos, apenas respire e deixe que o caos leve você por um mundo sem caminhos demarcados. E perceberá que o mundo não é apenas um. E não terá mais medo. E tudo será felicidade.

Pareço utópico demais? Tem certeza? Quem de nós dois sonha com uma felicidade distante que um dia será alcançada, sem saber definir o que é nem como tocá-la? Isso sim é utopia. Eu toco a minha todos os dias, afasto as lâminas, não sinto ódio de nada ou de ninguém. Não me agonizo por coisas simples, sei ouvir o vento, sei ouvir os corações das pessoas encostadas em mim, sei me misturar às suas respirações, sei deslizar pelas suas mãos. Sinto cheiros a uma distância enorme, sinto palavras que nunca são ditas, mas chegam até mim. Sei me guiar pelo vento e pedir ao vento que venha e ele me escuta. E posso tocar no passado e no futuro como se fossem todos em um tempo só, e são. E posso tocar em todos os mundos de todos os tempos como se fossem um mundo só, e são. E sei que lá é aqui e que tudo é um momento único que deve ser pleno, porque só pode ser pleno.

Não sinta raiva. Agradeça tudo no seu caminho e aprenda algo. Não sinta medo, arrisque-se; e quando digo arriscar me refiro a não ter nenhuma segurança, ou o que você sempre achou que fosse segurança.  Esqueça os caminhos padrões. Destrua os caminhos e vague solto por aí. Seja feliz ao acertar, ao errar, ao ganhar, ao perder, no prazer, na dor. Não tema a escuridão e não tema a luz. Comece experimentando todos os outros quadrados dos quais você sempre teve certeza de não fazer parte, até que faça parte de tudo e não existam mais separações. Ame. Sem motivos, razões ou certezas. Ame quando o ar mudar dentro de você. Ame quando as cores forem outras. Ame quando sentir medo. Ame quando sentir ódio. Ame quando parecer loucura, costumam ser as melhores oportunidades. Ame, e só ame, e mais nada. E toda dor ou tristeza será revertida em alegria.

Os barulhos que me acordaram já não estão mais aqui. A música continuou. Os homens de lâminas cegas agarradas à pele estão distantes. Arrastaram seus quadrados e foram para algum lugar. Que é sempre o mesmo lugar onde sempre estiveram. Eu não saí da cadeira, e já vi vários mundos e milhares de quadrados aprisionadores enquanto escrevo este texto. Sou feliz por ver e não estar dentro. Sou feliz por terem feito barulhos aterrorizantes, o barulho não me causou medo, me causou felicidade, pois me deu um texto.


É simples. Simples demais. Esqueça as regras e seja plenamente feliz.   

sábado, 2 de maio de 2015

os olhos dos outros

Um dia, sentado na escada do centro de línguas da UFJF, hoje faculdade de letras, eu acho. Esperando minha aula de francês, eu estava escrevendo. Já não era mais um adolescente. Não me lembro o que era, só me lembro que um colega parou do meu lado e me perguntou o que eu tinha usado. Não entendi. Como assim usado? E ele perguntou, o que você usou para ficar assim? Então observei que as minhas mãos estavam sacudindo, meus pés se mexiam, eu realmente estava estranho e ele pensando que eu tinha cheirado cocaína. Expliquei a ele que eram personagens, que não uso nada além das histórias. Nem sei como é tomar um porre, nunca fiz isso. Cresci vendo meus colegas aprenderem a fumar maconha, nunca fiz isso. Sempre quis uma coisa, controle. E sempre tive esse controle para poder me entregar às histórias e personagens sem medo. Perder o controle dentro da criatividade, sabendo voltar a ele. Não escrevo bêbado ou chapado. Nunca fiquei bêbado ou chapado.

Aos olhos dos outros, de muita gente, sempre fui visto como louco ou irresponsável, insano, tarado, perdido e tantas coisas que não saberia nominar. Só porque olho através dos olhos dos meus personagens e acredito no que vejo. Vejo pessoas diferentes de mim que me ensinam a respeitar o outro sendo ele quem ele quiser ser. Aprendi com os meus personagens que todos os sentimentos são verdadeiros e dignos de serem respeitados, dignos de existir. Cada um deles é único e ao mesmo tempo, contém o universo inteiro dentro de si. E assim eles me ensinam a respeitar, entender, ouvir, amar e servir a algo que seja maior do que eu. Eles me ensinam que existe muito mais do que os meus olhos possam ver sozinhos e, por isso, olho pelos meus e pelos deles. Cada personagem me permite ver mais longe, conhecer mais, amar mais o mundo à minha volta, viver mais de forma pura e tornar a minha arte mais competente e bela.

Aos olhos dos outros já fui chamado de tudo, de doido, até de gênio. Não sou nada disso, só sou um homem de muitos personagens e muitas palavras. E conhecer e tocar a sua essência faz de mim alguém que não mente, não fere, não maltrata, não engana ou prejudica. Porque todo indivíduo é um ser único e pleno e preciso de cada um para existir. Amo todas as pessoas do mundo, até as que não quero perto de mim por que fazem mal a mim, a elas e a todos que tocam, porque mentem, enganam e acreditam que estão sendo boas e espertas, mas são pobres, fracas e covardes. Cada personagem é como se eu tivesse mais alguém dentro de mim e pudesse olhar pelos olhos de outro e ver mais do que tinha visto até ali. Isso me faz crescer e evoluir, isso me torna humano.

Somos todos iguais, independente de quem somos. Respiramos da mesma forma, nascemos do mesmo jeito e morreremos um dia, deixando somente nossos corpos ou nossa história com ele. Já tenho história para deixar, uma história que poucos ainda conhecer porque tentam me ver com olhos assustados. E pedem o tempo todo que eu pare de ir além e fique parado com todos. E tentam me parar. E contam histórias sobre mim que desparecerão na fraqueza de suas palavras vãs. Mas um dia olharei através de seus olhos e entenderei seus motivos e direi, olha quem você é. Se veja, se entenda e aprenda. Não comigo, mas com você mesmo.


Sou apenas um homem repleto de personagens e de palavras. Por isso não preciso de mentiras ou de esconderijos. Porque através dos meus e dos olhos dos outros que vejo, está a verdade mais pura que pude conhecer: somos todos um só. 

domingo, 5 de abril de 2015

onde não estou

Moro em uma cidade mediana, a conheço de trás pra frente, sou quase uma gps humano. Conheço mais pessoas do que seria a minha capacidade de listar. Já viajei a tantas cidades que não me lembro de todas. Falo mais duas línguas além da minha e arranho uma terceira. Tenho internet no trabalho e em casa. Sou dono do meu trabalho. Sou artista. Posso escrever e dizer basicamente o que quiser. Ou o que os outros quiserem ouvir. Não vejo TV. Não leio jornais ou notícias na web. Posso estar em qualquer lugar. Mas então, onde eu nunca estou?

Vivemos muitas expectativas, muitos planos, muitas projeções do que poderemos ser, ou do que poderíamos ter sido. Tudo o que não fiz. Tudo o que desejo. Tudo que parece estar fora do alcance. Pensamos em tantas coisas por tanto tempo que parece não sobrar tempo para estarmos no único lugar seguro de qualquer destruição. Em nós mesmos. São tantos desejos e conquistas necessárias para ser feliz, quando nada me faz mais feliz do que sentar e escrever. Então por que não escrevo o tempo todo? Todos sentimos medo da solidão e isto nos causa inquietude, mas com tantos personagens à minha volta, que às vezes me tiram da cama, como posso me ver só? Não há solidão, há o meu tempo e eu devo caminhar com ele, ou ficar parado às vezes ao seu lado. Sempre precisamos de mais dinheiro, mesmo que já possa tomar vinhos importados, comprar bons livros, pagar o aluguel do meu curso e as outras contas, comprar roupas, sapatos, comer salmão e picanha, enfim; por que precisar de tanto? Quero uma casa? Junte, espere, more no lugar certo. Ou não more, viva por aí, conhecendo mais mundo do que será capaz de contar. Me digo várias vezes isto. Amo esta e muitas outras ideias que eu tenho. Amo quem eu sou. Amo minha capacidade de criar e pensar. Mas onde eu ainda não estou?

Amar é um verbo extremamente usado em nossa sociedade. Temos muitos, para não dizer incontáveis conceitos de amor. Todos, no entanto, com uma raiz em comum: eu quero. Mesmo que eu ame para possuir, ou que eu liberte o outro para que isto me faça feliz e sublimado, ainda assim: eu quero. Não posso amar do mesmo jeito todos os dias. Pode ser que na segunda eu ame ouvir a sua voz, e na terça eu ame ouvir outra voz, e na quarta eu ame o direito de não ouvir voz nenhuma. E na quinta eu queira sexo. E na sexta eu queira sorvete. Não pode haver uma regra. E se não, também não pode haver um objetivo. Amar para que? Para ser feliz? Para ter companheirismo? Não posso fazer nada do que disse até agora se eu não respirar, então se respiro já é tudo que preciso para ser feliz. E por que não estamos nunca plenamente felizes? Porque não estamos no único lugar onde deveríamos estar, em nós mesmos.

É preciso encontrar um eu verdadeiro, isento dos eus do mundo. Não quero estar comigo para curar meu stress, ou para salvar a humanidade, ou para me tornar grande e glorioso, ou pra merda nenhuma. Tenho que estar no eu, porque é isto que eu sou, e só assim vou existir de verdade. Criamos tanto, desejamos tanto, que quando nossos desejos não são todos atendidos (e jamais serão porque nossa capacidade de criação de expectativa é ilimitada) sofremos e abandonamos a felicidade. Isto mesmo, abandonamos, porque ela já nasce em nós, não precisamos buscá-la, apenas a deixar existir. Desenhamos possíveis amores, carreiras, perversões, glórias, riquezas, espiritualidades e tantas coisas que seria demasiado falar, até porque muitas aspirações eu nem conheço. Desejamos tanto que passamos a nos sentir distantes e fracos e esses desejos no desertam em um mundo imenso demais para que possamos nos encontrar.

Onde eu estou? Tento estar em todo lugar o tempo todo. Maldita rede que nos transporta numa velocidade impressionante e nos perdemos no caminho em busca da satisfação vinda de outrem. De algum lugar. De alguma divindade. De alguma qualquer coisa, tanto faz, são tantas. E nessa perda construímos cidades com reservatórios de água e acabamos com a água. Construímos casas para nos proteger e elas nos sufocam e nos aprisionam. Construímos templos para encontrarmo-nos com o divino e distribuímos ali o nosso ego por sermos os únicos no caminho certo, salvando os outros. Construímos estradas e máquinas que voam, onde nos perdemos. Construímos guerras, bombas, vírus, doenças, miséria, medo, egoísmo. Regulamos nossos desejos sexuais em regras morais que atormentam o corpo e o fazem desejar mais do que o natural. Construímos roupas para nos esconder e expomos o pior de nós nas etiquetas. Construímos redes sociais para interagir e cada vez mais não sabemos do outro, não de verdade. Cada vez mais não nos tocamos, não nos olhamos, não somos nada. Tentamos construir tudo e estar em todo lugar. E mesmo que estejamos, não estaremos em lugar algum, porque nunca estivemos em nós.

Eu não construí muitas coisas, mas construí algo muito grande e só agora percebo que um pedaço disso, o mais importante, o que nos levaria a uma liberdade plena, sem escravidão moral; esteve corrompido por um desejo, uma projeção, uma aspiração que distorcia sua verdadeira essência. Eu via de forma distorcida a parte mais bela da minha criação, por causa de uma expectativa vil e inútil. Hoje entrei em mim e senti que desperdicei tanto e tantos, tantas vezes. Hoje entrei em mim e me senti perdido, onde eu nunca havia estado de verdade. Onde nunca estamos, em nós mesmos.
É preciso parar. Frear. Diminuir os desejos e aspirações, principalmente os que lidam com a posse ou com o outro. É preciso sentir a pureza que há em nós e não temer a cultura de acúmulo. Não temer a reprovação dos culturados. É preciso enxergamo-nos como seres completos, conectados a tudo e a todos. É preciso abandonar a individualidade dentro do eu, onde cabem e estão todos. Tente ficar alguns minutos sem pensar todos os dias, nossos pensamentos são reproduzidos em série pelas nossas expectativas e não deixam que nossa mente encontre sua verdadeira essência. Tente parar por alguns minutos todos os dias e tirar toda a cultura de você, só assim perceberá que não tem nada, e por isto, já tem tudo o que precisa.

Onde não estou, é onde mais preciso estar, em mim. Esqueça seus desejos, seus medos, e apenas olhe. Não pense, esteja. Tudo já lhe foi dado. Não há nada a conquistar, por isso jogamos a vida fora o tempo todo. Domine os seus pensamentos. Pare os seus pensamentos. Saia do eu cultural que contaram que você é. Não, você não é isto. Esteja no único lugar em que deve estar, em você. Concerte tudo o que fez. Sempre há tempo.


Fique em paz. 

domingo, 15 de março de 2015

Crônica de uma foto de uma pessoa

Passou casualmente pela timeline do meu facebook uma foto de uma pessoa, foto simples feita por ela. Muitos estavam elogiando e ela agradecia. Como nós não nos conhecíamos de verdade, e não faço parte de seu círculo ou sequer os conheço direito, resolvi elogiar de forma privada, sutil, fiz inbox. Ela agradeceu, conversamos um pouco; avisei que não estava dando em cima e ela disse que sabia, já que é casada, fato que eu desconhecia pois não havia lido seu perfil, e nunca o fiz depois disso. Não me interessam as informações compartilhadas ou os rituais de discrição que somos obrigados a aprender e obedecer. Posso elogiar quem eu quiser e a pessoa pode receber isso e pronto. Não precisamos de caminhos ou permissões para tal. Mas então, por que fiz inbox? Primeiro porque eu não sabia como a palavra “bonita” seria recebida pela dona da foto, segundo porque eu não sabia como a recepção da dona da foto seria recebida pelo seu círculo social, terceiro, porque eu não sabia mais em que mundo eu vivo por ter de me preocupar com as duas coisas anteriores.

Conheço muitas pessoas bonitas, outras feias, outras esquisitas, e se disser “bonita” sou tarado, “feia” sou indelicado e “esquisita” sou preconceituoso. Se não disser nada, sou frio e não interajo com as pessoas. Pelo bem das redes sociais que exploram a exposição despretensiosa dando a todos o direito sobre o que é dos outros. Gostamos de ser vistos, isto é um fato para muitos, é para mim. Contudo não uso minha rede social de forma pessoal, apenas profissional porque não acho que ali alguém me veja de verdade. Mas gosto de ver, sou um bom espiador (o Word não aceita a palavra, acho que prefere Voyeur – é, prefere). Contudo, não leio perfis, não fuço os álbuns; às vezes, em poucos momentos, para e observo fotos ou frases postadas. Só o momento basta, só o momento já me diz muito sobre a pessoa. Um sorriso, uma palavra, um detalhe às vezes escondido. Não é preciso tentar entender a vida de alguém se posso olhar um minuto e pronto, talvez não veja nunca mais, talvez nunca nos falemos. Mas por que preciso ver tudo ou falar com todos sobre tudo o tempo inteiro? Gosto de momentos, nuances, detalhes, gosto do não compromisso do conhecimento pleno ou das conversas diárias, gosto de olhar quando quiser olhar, de falar quando houverem palavras.

Olhei uma foto, parei para olhar de novo, a foto me presenteou com palavras, devolvi palavras em forma de elogio à pessoa da foto que agora aparece verde no meu chat (coisas da web 2.0); disse que faria uma crônica, mas não sei se isto é uma, pelo menos tá no título que é. Posso dizer o que eu quiser assim como as pessoas podem ser bonitas, feias ou esquisitas sem que alguém precise dizer isto a elas, porque o que é dito não muda o que realmente está lá. Mas pode mudar como as pessoas vêm você, principalmente se não estiver na regrinha que elas seguem de como se portar. Há um livro? Ou há apenas a verdade sobre as relações sociais sendo passadas boca a boca (boca a boca não, beijo só pode no namoro, ou em festas, ou por putaria, por vontade simples não). Existem tantas regras e tão pouco relacionamento social verdadeiro. Existem tantas fotos e tão pouca admiração verdadeira, existem tantas palavras e quase nada é ouvido, até porque quase nada de verdade é dito. Olhei a foto, olharei outras, rabisquei minhas palavras, um obrigado e um enorme beijo à Pessoa da foto. Me deve um café (ou um suco porque não todo café) uma tarde dessas... isso pode nas regras sociais?


Eu posso.