Hoje, quando eu acordei, havia tanto barulho no mundo que
parecia que a agonia plena estava liberta. Tenho bons fones de ouvido e boa música
no meu computador, e uma garrafa de água, e posso apenas não ouvir o que não
interessa. É como se o ar fosse feito de lâminas, lâminas cegas que rasgam
grosseiramente a pele e ficam grudadas nela, sangrando ódio e destruição. Odeia-se
quem diz não e quem diz sim, e ainda mais quem não diz nada. Odeiam os gays, os
héteros, os ricos, os pobres, os brancos, os negros, os orientais, os burros,
os inteligentes; e esta lista pode se tornar infinita se eu não parar de
enumerar. Pois não é isso que importa aqui agora.
Hoje quando eu acordei, os barulhos faziam nascer mais
lâminas no ar. Moro em um pequeno quadrado preso a outros quadrados maiores, o
meu não tem lâminas. Elas existem porque se aprendeu há tanto tempo a dividir o
mundo e as pessoas em quadrados. Classifica-se por etnia, religião, gosto
musical, posses financeiras e tantas coisas, que não sei mais entender onde
foram parar as pessoas que estavam atrás dos rótulos e nomes dados a grupos,
são nichos ou agrupamentos raivosos e medrosos atrás de paredes imbecis com um
nome escrito, que não protegem, e sim segregam. Se você se interessa por uma
pessoa do outro sexo é hétero, se se acaso interessar por uma do mesmo sexo é
homo, e se não souber decidir não é livre, é bi. Quantos desejos não devem
ficar aprisionados dentro das pessoas porque elas escolhem obedecer a uma
classificação e param de sentir livremente? As lâminas cegas dividem tudo em
tantos pedaços, que acabamos não sabendo em qual deles ficar e começamos a
obedecer a voz imensa da multidão que nos classifica de tantas formas e nos
joga de um quadrado pro outro, nos ferindo e guardando lâminas de ódio em nossa
pele, cada dia mais lâminas, cada dia mais ódio, cada dia mais grupos para
odiarem uns aos outros.
E onde fica a felicidade nisso tudo? Na esperança de um dia,
talvez, quem sabe... lá longe, vou alcançar, chegarei lá e é só isso que
importa. E claro. Nunca chegamos. Nos arrastamos em meio às lâminas e ficamos
agarrados em quadrados muito pequenos e limitados, vislumbrando uma felicidade
no futuro distante. E ela nunca chega nem chegará, porque a imaginamos como
nunca foi e nunca será. Se não somos felizes, como podemos saber o que será a
felicidade que perseguimos para um dia alcançar? Se não está feliz, como sabe o
que precisa pra estar? E é nesse momento que vejo todos enquadrados em pequenas
prisões, olhando para um longe imaginário e esperando que um dia algo o liberte
dali, sem saber que está preso. E se paro de obedecer e as lâminas param de me
tocar e posso andar livremente, sou gay pelo cachecol vermelho, sou tarado
porque me permito chegar perto das pessoas e tocar nelas, sou vagabundo porque
não vou me aposentar, sou drogado por causa do meu cabelo bagunçado e pra cima,
sou bandido e pessoas correm de mim em passagens fechadas porque não me
movimento de forma contida, ocupo espaço quando ando; e quando me conhecem
apenas de nome me imaginam de uma forma tão diferente da que realmente sou, e
quando me veem pessoalmente, me imaginam de uma forma mais diferente ainda. E temem
quando digo que sou feliz em tudo que aconteça, e olha que aprendi isso com
alguém que não faz isso. Mas claro, para eu ser feliz e sublimar as dores do
mundo eu deveria usar roupas mais largas, cores pastel, falar devagar
arrastando as vogais, como se estivesse numa onda zen, meio louco de alguma
coisa. Pobres adoradores das imagens e dos estereótipos. Eu falo rápido, claro
que falo, penso infinitamente mais rápido do que meu corpo e o vocabulário possam
expressam, quando estou criando então, pareço transtornado. É, eu falo alto. Falo
mesmo, gosto de ser ouvido, nasci pra isso.
A questão toda é, você nunca será feliz enquanto se permitir
estar em algum quadrado, e sabe que está em porque vê outros e coloca as
pessoas neles. Quem não é feliz se torna eficiente em roubar a felicidade dos
outros. Arrancar as lâminas da pele irá doer, tem que doer, doeram para entrar.
Ah, mas disseram que era o natural da vida. Pois é, era mentira, não era o
natural. Foram enfiadas à força aí. E como arrancá-las? Tire suas
classificações, goste de preto, de branco, de azul, de rosa; não tenha uma
música preferida, não tenha uma comida preferida, varie, prove, conheça. Errar é
a maior ferramenta de aprendizado que pode existir, e é libertadora do medo. Não
teste só o que sabe que gosta ou quer, porque isso não é teste, é certeza. Testar
é assumir não saber se quer ou não, e experimentar, e se gostar, ganhou algo, e
se não gostar, aprendeu algo; e de ambas as formas, dá pra ser feliz. A cada
dia nos são abertos inúmeros caminhos, e parece impossível decidir exatamente
qual deles trilhar. Então experimente todos, e erre o tempo todo, e não sofra,
seja feliz, porque depois de tanto experimentar, saberá todos os caminhos por
onde não quer ir, e isto aumenta sua chance de acertar e ir por onde o seu
coração realmente deseja. E por falar em coração e desejos, nossos corações e
nossos desejos são manipulados desde que nascemos para que acreditemos gostar e
querer coisas que nunca tivemos a opção de questionar. Então questione as suas
certezas, desafie os desejos óbvios dentro de você. Experimente o que não
gosta, vá pelo lado que não quer, nem que seja para conhecer, beije os feios,
abrace os chatos, aprenda com os idiotas, ame os que nunca estiveram na sua
lista, deseje fora de suas preferências, esqueça os seus gostos, os seus
planos, apenas respire e deixe que o caos leve você por um mundo sem caminhos
demarcados. E perceberá que o mundo não é apenas um. E não terá mais medo. E tudo
será felicidade.
Pareço utópico demais? Tem certeza? Quem de nós dois sonha
com uma felicidade distante que um dia será alcançada, sem saber definir o que
é nem como tocá-la? Isso sim é utopia. Eu toco a minha todos os dias, afasto as
lâminas, não sinto ódio de nada ou de ninguém. Não me agonizo por coisas
simples, sei ouvir o vento, sei ouvir os corações das pessoas encostadas em
mim, sei me misturar às suas respirações, sei deslizar pelas suas mãos. Sinto cheiros
a uma distância enorme, sinto palavras que nunca são ditas, mas chegam até mim.
Sei me guiar pelo vento e pedir ao vento que venha e ele me escuta. E posso
tocar no passado e no futuro como se fossem todos em um tempo só, e são. E posso
tocar em todos os mundos de todos os tempos como se fossem um mundo só, e são. E
sei que lá é aqui e que tudo é um momento único que deve ser pleno, porque só
pode ser pleno.
Não sinta raiva. Agradeça tudo no seu caminho e aprenda
algo. Não sinta medo, arrisque-se; e quando digo arriscar me refiro a não ter
nenhuma segurança, ou o que você sempre achou que fosse segurança. Esqueça os caminhos padrões. Destrua os
caminhos e vague solto por aí. Seja feliz ao acertar, ao errar, ao ganhar, ao
perder, no prazer, na dor. Não tema a escuridão e não tema a luz. Comece experimentando
todos os outros quadrados dos quais você sempre teve certeza de não fazer parte,
até que faça parte de tudo e não existam mais separações. Ame. Sem motivos,
razões ou certezas. Ame quando o ar mudar dentro de você. Ame quando as cores
forem outras. Ame quando sentir medo. Ame quando sentir ódio. Ame quando
parecer loucura, costumam ser as melhores oportunidades. Ame, e só ame, e mais
nada. E toda dor ou tristeza será revertida em alegria.
Os barulhos que me acordaram já não estão mais aqui. A música
continuou. Os homens de lâminas cegas agarradas à pele estão distantes. Arrastaram
seus quadrados e foram para algum lugar. Que é sempre o mesmo lugar onde sempre
estiveram. Eu não saí da cadeira, e já vi vários mundos e milhares de quadrados
aprisionadores enquanto escrevo este texto. Sou feliz por ver e não estar
dentro. Sou feliz por terem feito barulhos aterrorizantes, o barulho não me
causou medo, me causou felicidade, pois me deu um texto.
É simples. Simples demais. Esqueça as regras e seja
plenamente feliz.