Às vezes existem muralhas que se
constroem em nossa frente e nos impedem de prosseguir, talvez para sempre. Na maioria
das vezes essas muralhas são pessoas. Eu mesmo já construí e fui muralhas na
minha própria vida. Me machuquei muito para aprender a não ser. E nessas
feridas eu entendi o mais importante: por maior que seja a minha muralha, por
maior que seja a pessoa sustentando essa muralha, todas elas sangram. E se
sangram, é porque podem ser feridas.
Somos educados em uma cultura
egoísta e aniquiladora, intencionada apenas em fazer com que todos sejam
iguais, limitados a pensar como iguais, a desejar a igualdade padronizada e, a
impedir o mudança e a revolução, e para isso as pessoas se torna muralhas e nos
cercam e nos prendem fora do caminho que devemos ou desejamos seguir. Se as
muralhas sempre ficarem de pé elas vão impedir que a vida mude e a destruição à
nossa volta só irá aumentar e se aglomerar em nossa alma. É claro que as
muralhas são sempre maiores que nós, pois estão apoiadas em milênios de
certezas e convicções, alimentados por milhares de indivíduos que não pensam
livremente, são simplesmente conduzidos por um fluxo que sequer conhecem. As muralhas
são enormes. São totalmente capazes de nos bater e nos machucar. Mas também
podemos bater e sangrar e rasgar as muralhas. Se não pudermos pular sobre elas
ou dar a volta, que as machuquemos, ou aceitemos ficar à sombra delas até nos
tornarmos uma extensão e também sermos uma muralha ao novo e diferente. É uma decisão
simples, dolorosa, mas simples. E quando o medo acaba o mundo fica melhor.
É claro que todos nós fomos
educados por essa cultura destruidora e também construímos muralhas para nós
mesmos. E nesse caso é preciso fazer sangrar a nós mesmos. Não há droga,
terapia ou deus que substitua um bom rasgo no ego em função da liberdade. Destruamo-nos
para sermos livres. Percamos, para vencer. E quando não formos mais muralhas,
teremos a coragem e a força necessária para ferir quem se torne um impedimento
à nossa vida. Sangremos os nossos medos e as nossas destruições, sangremos tudo
o que impede a nossa liberdade. Todo sangue é válido pela liberdade. Porque as
muralhas à sua frente sangram a sua alma todos os dias. E se a alma já sangra,
que sangrem as muralhas.
A liberdade é o caminho mais belo
em nossa vida. Ela cura todas as doenças e medos e todo o resto é mentira. Só há
liberdade quando sabemos viver por nós e pelo outro, sem ego e também sem medo.
Seja livre ou seja muralha. A liberdade
é inevitável, as muralhas sangram.