Hoje quando me sentei para
esperar o meu ônibus, faltavam uns quinze minutos e isto foi há uma hora atrás.
Tinha levado a Natália no ponto dela e fui para o meu. Um cara de uns quarenta
e poucos anos se aproximou de mim e perguntou se eu ia pagar o ônibus com
dinheiro ou cartão, como não tenho cartão e não tenho o costume de mentir,
disse que era dinheiro; até mesmo porque ele era do meu tamanho e não
representava perigo algum para mim. Sentou-se do meu lado e começou a me contar
que ganhava cinco mil reais, morava em um bairro bacana e usava o dinheiro do ônibus
para pagar a faculdade dos filhos. Claro que não acreditei, mas ele não estava
bêbado nem fedendo, era uma pessoa comum ganhando meus dois reais em troca de
me pagar a passagem, ou seja, eu não estava dando nada a ele. O ônibus veio
rápido, entramos, passamos na roleta e ele se sentou ao meu lado. Começou a me
falar que ele na verdade não morava no bairro que tinha falado, apenas dormia
lá, que ele morava debaixo do céu, no ônibus, ou seja, onde ele estivesse,
porque nada era dele, ele só usava enquanto estava ali. Desceu logo em seguida,
até mesmo porque ele não é o conteúdo principal desse texto. Nada era dele, só
usava quando estava ali. Soou interessante essa afirmação e resolvi me permitir
pensar uma utopia, e classifico assim porque não tenho qualquer esperança que
isto exista um dia, mas poderia ser interessante. A ideia seria tornar tudo
transitório, destituir toda propriedade, vou passear na proposta por alguns
elementos.
O primeiro seria o trabalho, algo que sei que
as leis trabalhistas jamais iriam permitir. E se o trabalho fosse transitório? E
se eu pudesse trabalhar por um tempo em uma empresa e depois de um período
vagasse um lugar em outra e eu fosse pra lá e alguém que trabalhava em outra
ficasse no meu lugar? Seria diversificado, seria interessante, haveria uma troca
de experiências muito bonita. Por um lado seria bem interessante para as
empresas e para os trabalhadores. Claro que uma adaptação causaria um certo
trabalho extra no período de troca, mas seria compensada pela felicidade que
causaria nas pessoas, viver novos ares, novas metas, novos colegas de
profissão, aprender e ensinar coisas diferentes; o conhecimento dos
profissionais mudaria muito nesse sentido, certamente a qualidade do produto
final seria melhor e mais diversificada, além de aumentar a qualidade de vida
do trabalhador. E poderia ainda ser maior, poderíamos trocar de profissão
(claro que para aquelas nas quais temos habilidades, nem tudo uma pessoa pode
fazer), experimentaríamos assim uma nova vida e voltaríamos pra anterior se
quiséssemos ou ficaríamos passeando entre elas pra sempre. E o aprendizado contínuo
faria com que todos crescessem cada vez mais.
E se a faculdade fosse assim? Acabar
com os cursos, oferecer todas as matérias a todos. O aluno entra sem
compromisso com nenhum curso e tem todas as matérias à sua disposição, claro que
com seus pré-requisitos necessários, não dá pra comprometer o aprendizado, mas
ele pode estudar o que quiser e aprender o que quiser. Imaginem os
profissionais pluralizados que não sairiam dali? Que com certeza sustentariam o
trabalho transitório. O aluno poderia passear entre os departamentos, estudar
muito ou pouco, dependendo dos seus desejos, sem conhecimento engessado. E o
melhor, ele não precisaria se formar em nada, apenas teria muito conhecimento
que contribuiria imensamente para sua vida e para a vida de muitas outras
pessoas. Os cursos perderiam a grade, deixariam de existir. As universidades
não ofereceriam diplomas, e sim, única e exclusivamente, conhecimento.
E as casas? Poderiam também ser
transitórias. Mora-se por um tempo em uma casa, depois se vai para outra e deixa
a que se estava livre para alguém. Isto claro dependeria da transitoriedade dos
empregos e escolas, até mesmo para os filhos pequenos. Trocar de lar, de
vizinhos, conhecer mais pessoas e lugares, conhecer amigos novos, manter
contato com os velhos ou deixar pra trás, respirar novas formas de vida, novos
sabores, novos aromas, mudar, ir, voltar, os mais mansos ficariam perto,
mudando talvez de bairro ou cidade, mas os mais ousados de país ou continente. O
ser humano tem pernas para se locomover e estar fincado num lugar só o
aprisiona, por que não aproveitar essa capacidade para conhecer cada vez mais o
mundo e as pessoas que vivem nele? Há limites naturais e geográficos? Claro que
não, com os sistemas de transportes que já estão desenvolvidos, montanhas ou
oceanos não são mais elementos separadores, temos tecnologia para ir de um
lugar para o outro com rapidez, segurança e conforto. E a facilidade de
comunicação gerada pela internet? As escolhas podem ser medidas ou feitas por
rumo, mas as informações estariam sempre disponíveis aos que as quisessem. Não haveria
limites para se descobrir a verdadeira essência da vida e sua transitoriedade. Pra
que ser dono da casa se ela serve como prisão? Se ela limita os meus
horizontes, diminui o número de pessoas que vamos conhecer, faz com que
saibamos menos e tenhamos menos alegrias, se ela nos amarra e nos priva de
paisagens e histórias que estão por todos os lados? Onde está a segurança em se
encaixotar e não ver mais nada? Ganharíamos o mundo e tudo e todos seriam mais
felizes.
As escolas para as crianças e
adolescentes. Bem, para haver a transitoriedade das casas seria necessário que
as escolas fossem transitórias e os alunos pudessem mudar sempre que desse
vontade. Isso além de ampliar os horizontes como já temos falado, seria um
elemento de igualdade inestimável. Para que pudesse acontecer, todas as escolas
em toda a parte do mundo deveriam seguir o mesmo padrão de qualidade. Ou seja,
ninguém tem menos e ninguém tem mais. Não preciso falar mais nada sobre isso.
Estaríamos construindo um mundo muito maior do
que o que podemos alcançar com nossos olhos, ou ainda menos, alcançar com as
nossas mãos. Ou pior, alcançar com nosso conhecimento repleto de verdades pré-concebidas
que não nos deixam ver sequer quem somos. O mundo se abriria e nos abriríamos para
o mundo. Conheceríamos mais sobre as pessoas e, consequentemente, sobre nós
mesmos. O preconceito certamente acabaria, o ódio e a intolerância também. Seríamos
todos irmãos, como gostam de afirmar os religiosos, seríamos todos um só, como
gostam de dizer os quânticos, só sei de uma coisa, seríamos felizes, livres,
inteligentes, amados, amantes, o mundo seria o melhor lugar para se viver. Todos
os problemas acabariam. Amantes?
E se a posse do amor fosse
transitória? Você está com alguém, moram na mesma casa, mudam-se para várias
casas e vários países, constroem uma vida juntos e, em certa ocasião, mudam-se
separados e amam outras pessoas naquele momento, até que voltem a se encontrar, ou nunca mais façam isto. A posse
sobre o outro acabaria. O medo do outro também. O amor seria cada vez mais
reforçado e aprenderia que não precisa da presença material do corpo do outro
para sobreviver. Não iríamos querer amar um pra receber o amor desse um de
volta, porque isso não passa de escambo, uma troca mesquinha e egoísta. Não há
amor sem liberdade plena e nem liberdade plena sem amor, mas isto não se faz
por meio de troca, é uma necessidade natural do ser humano, que o ser humano se
aprisiona para não ouvir. Não temos, não possuímos, apenas sentimos. E a pessoa
amada voltaria com mais amigos, com mais amor, com mais conhecimento, mais
livre, mais perfeita, e amor aumentaria. O toque não seria mais posse, seria
troca e perfeição.
Mas isto não passa de uma utopia.
Estamos muito certos de que nos acorrentar a verdades que gerem esse mundo é o
melhor a ser feito. Afinal de contas, quantos milênios já vivemos regidos por
esta verdade, olha só onde chegamos; podemos atravessar um oceano em algumas
horas, podemos falar com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo de forma
imediata. Podemos fazer guerras nucleares extinguir a vida no planeta. Podemos criar
religiões que buscam deus e aniquilar os outros através de intolerância. Podemos
matar milhões e milhões de crianças de fome em locais de vida miserável. Podemos
ver a violência nas grandes cidades aumentar cada vez mais. Podemos desmatar e
poluir o planeta. Podemos ter rios podres e extinguir várias espécies de
animais por ano. Podemos dopar nossas crianças com ritalina para que elas não
pensem mais em liberdade. Podemos aplaudir a corrupção e ver como alguns
bilionários são mais importantes do que milhares de miseráveis. Podemos matar
por amor porque somos donos da pessoa amada. Podemos aniquilar a arte. Podemos
destruir o ar e o ozônio que nos protege do fogo do inferno, ou melhor, do fogo
do sol. Podemos, guiados pelo nosso egoísmo, fazer tudo para que a vida do
outro acabe, mesmo que isto acabe com a minha, mas terei o prazer de ver o
outro se fuder primeiro. Podemos criar
moda, roupas, esconder nossos corpos até os poder vender por qualquer merda de
fama ou dinheiro. Podemos condenar o corpo como pecado pagar pra possuí-lo de
forma mesquinha. Podemos nos alimentar como imbecis e matar nossos corpos com
corantes e gorduras saturadas. Podemos mentir e criar um deus para nos punir, e
aí mentimos escondido. Podemos matar, porque a vida não importa.
É, minha utopia é mesmo uma
utopia. Quando olho para o mundo como está tenho uma certeza muito grande. O ser
humano está muito seguro de saber que está fazendo o correto. Acertamos sempre.
Sempre estivemos no caminho certo. Aniquilação é natural. Liberdade é utopia e
deve ser combatida. Combata a liberdade e ame sua prisão e nesta prisão, olhe a
miséria humana que domina o mundo e diga: - isto me faz feliz, porque essa
bosta toda é minha. Afinal, o que mais você precisa além de possuir?
Dormirei. Sabendo que não sonhei.
Mas vislumbrei uma utopia.