Eu sou um homem do conhecimento, descobri isso ainda criança
quando comecei a questionar os dogmas e as verdades que me ensinavam. A cada
passo em minha vida, saber e entender se tornavam cada vez mais importantes. Confesso
que rotulei e defini muitas coisas ao meu inteiro egoísmo. Entendo que tentei
por muitos anos ver o mundo a partir das minhas fontes crescentes de
conhecimento. Vi muitas coisas e aprendi muito neste caminho, contudo, sempre
havia algo a aprender. Passei por teatro e literatura (que faço até hoje e são
minhas mais fortes bases), estudei o pensamento religioso, o corpo e o
movimento, cinema, culturas midiáticas e tantas coisas que seria desnecessário
enumerar. Há pouco tempo comecei a estudar de verdade filosofia porque queria
conversar sobre filosofia com uma pessoa especial para mim. Queria instruí-la
na filosofia, pois sei que ela será grande nessa área. Então, era preciso
estudar. E foi a primeira vez que disse ‘eu não sei’ sem me importar com isto.
Para ilustrar o meu texto vou utilizar uma história antiga
da filosofia chinesa, escrita por Zhuangzi, logo em seguida um comentário retirado
do livro de Gilberto Antônio Silva ‘Os Caminhos do Taoismo’
Um homem chamado Nanjung Chu procurou Laozi na esperança de encontrar
respostas às suas preocupações. Ao se aproximar, Laozi falou:
– Por que me procurou com toda essa multidão de gente?
Ele se virou para trás para ver que multidão havia, mas nada
viu.
[Essa história é muito interessante por ser a ancestral do
conto Zen da xícara vazia, que todo mundo conhece. A multidão a que se refere
Laozi é o conjunto de conceitos, velhas ideias, certo e errado, vida e morte,
preconceitos e outros que carregamos aonde vamos. Ao buscar novas ideias,
devemos nos afastar desta “multidão” que nos segue aonde quer que vamos.]
Não há como saber sem não saber. Quando adquirimos um
conhecimento e um conjunto de hábitos culturais, sejam eles intelectualizados
ou simplesmente oriundos do dia a dia, desenvolvemos um campo de visão e
entendimento limitado. A partir daí, tudo deve caber nos degraus do nosso
conhecimento fragmentado e limitado, como todo conhecimento o é. E se ficarmos
estacionados ali criaremos raízes cheias de certezas e preconceitos e
determinações de futuro e de como todos devem ser. Até que saberemos como todos
são e poderemos rotular qualquer um à nossa volta. E em breve os olhos estarão
cerrados, apenas ouvindo os gritos vindo de dentro, cheios de medo de saber o
que não está ali, gritos de horror. E estaremos cegos pelo resto de nossas
vidas, dando voltas em volta de nós mesmos, sem nenhum lugar para ir. E não
aprenderemos mais nada, pois tudo deve ser medido através do que já sabemos.
A única forma de saber é não saber. Quando existir um campo
de visão [e ele sempre existirá] entenda que ele é pequeno e frágil. Entenda que
ele é tão fragmentado que cabe nele apenas uma porção ínfima da verdade. Então,
nesse momento, olha fora do seu campo de visão e não saiba nada. Pois assim
verá o que não está nos seu limitado conhecimento e, vendo isto, sem
preconceitos ou medos ou determinações de certo e errado, você poderá aprender
mais alguma coisa. E a cada cosa aprendida, nosso campo de visão aumenta e se
diversifica. Só assim se pode aprender de verdade alguma coisa. Não há como
aprender o que já sabemos ou cabe no nosso conhecimento habitual. O não saber,
o desconhecido, esses são os melhores elementos para um crescente aprendizado.
Tire o seu ‘eu’ do jogo e olhe o outro e o mundo fora de você.
Entenda o que puder entender. Aceite o que não conseguir compreender e caminhe
perto para se tornar alguém com mais capacidade de compreensão. Sinta medo, e
quando sentir, saiba que o desconhecido está ali e se aproxime e sinta o seu
cheiro. Só aprende quem não sabe, e quem acredita saber sobre tudo já está
imerso em uma ignorância imensurável.
Eu não sei praticamente nada. Por isso estou vivo e
aprendendo. Sentirei medo e insegurança. E quando o mundo parecer um inferno
seu saída, essa será minha grande lição de aprendizado.
Obrigado a você que me ensinou a ‘não saber’ todas as
respostas.