Sentado no ponto de ônibus, no portão da unidade de uma faculdade particular, esperando ônibus, havia ido lá acompanhando minha namorada, vi um homem que subia o morro a pé com uma garotinha, ele me pareceu ter menos de quarenta e ela uns nove ou dez anos. Iam para casa pelo que imagino, era por volta de oito e meia da noite. Logo acima da faculdade fica um bairro de periferia. Percebi muito pouco da conversa dos dois, mas no que pude ouvir ele explicava a ela o que era o prédio. Disse que pertencia a uma faculdade e que dali saíam pessoas formadas para estudar lá em baixo. Até que ele passou bem perto, a faculdade tem mesmo outras unidades mais em baixo. O que me chamou a atenção não foi exatamente o conteúdo de sua fala, foi o tom de sua voz e o olhar da menina. Estavam a poucos metros do portão da faculdade, mas olhavam e falavam sobre ela como se fosse um mundo distante, intangível, pelo qual jamais teriam a pretensão de buscar. E não tem mesmo.
O que torna uma instituição de ensino tão distante de uma criança e do pai desta criança? Por que o conhecimento não pode permear os seus sonhos e tornar-se um caminho designável a seus destinos? E por que nos permitimos separar pessoas em grupos, privilegiando alguns e explorando outros e, ainda, por que teimamos em chamar isto de destino?
Se eu soubesse a resposta eu não estaria colocando aqui estas indagações, não quero fazer retórica, quero que alguém me responda, ou faça mais perguntas, ou apenas fale algo. A segregação não é exclusivamente determinada por quem detém o poder econômico, ela viaja entre nós como um vento incansável que sopra nossa cultura e nossos valores; e ouvimos este vento de forma distorcida, sem saber de onde veio e nunca para onde irá. Por muitos anos da minha vida pensei que a forma correta de avariar esse sistema fosse se rasgar e se excluir, cursei uma universidade pública, onde pobres eram uma minoria quase extinta, principalmente nos cursos diurnos. Sempre havia sentido o cheiro da segregação financeira, cultural e ideológica do mundo e lá dentro, senti o gosto. Nunca fui do tipo que abaixa a cabeça, muito pelo contrário, fui prepotente e sobrevivi. Mas sempre pensei que a forma de conhecer e transformar o mundo dos “excluídos” seria sendo para sempre um deles, afinal, nasci em uma periferia, cresci e moro até hoje em um bairro distante, ainda ando de ônibus lotado, enfim... o grande problema, que entendi a poucos dias, pouco depois de ver aquela garotinha, foi que se eu tomo partido e vivo de um lado, em um grupo, é porque estou legitimando a existência e a separação dos grupos. Se a pergunta é, de que lado estou? Estou tentando fazer que não existam lados.
Posso me permitir alguns prazeres que provavelmente famílias sustentadas por apenas um salário mínimo não consigam, não sou rico, ainda. Entendo claramente que as pessoas que vivem no mundo distante o tornam e o querem distante daquela menininha, mas entendo também que as pessoas que vivem com ela e vêem aquele mundo como distante se encolhem e o deixam ficar cada vez mais longe, e quanto mais espaços vazios, mais rápido e letal o vento sopra suas verdades separatistas.
Sinto muito em dizer que sempre estive errado em condenar pessoas que exibiam roupas de marca, ternos, sempre tive uma reação enérgica com estes movimentos, mas sempre me incluí no grupo que exibia esta raiva. Sempre achei correto os que exibiam sua dor e sua incapacidade diante das injustiças sociais. Sempre vi os governos darem esmola e serem aplaudidos de pé. Aplaude-se a qualquer coisa de pé. Eu estava errado. Tudo isto sempre reforçou a separação, intensificou os contrastes; e são destes contrastes que nascem os sentimentos de não pertencimento, e quando não pertencemos, podemos aniquilar. E se você separa a humanidade em grupos você diz que a guerra é um fator natural a ela.
Somos todos feitos da mesma essência, efêmera, frágil e infinitamente bela. Decompomos os nossos corpos com o tempo para que possamos alimentar a nossa alma e recheá-la de sabedoria e benevolência. Não creio que tenhamos obtido sucesso. Por isto tantos morrem, por isto tantos matam. Por isto tantos nunca sabem de nada. Era para sermos um só, mas somos tantos, tão desconhecidos, tão desrespeitados; e o culpado disso tudo, é o vento que sopramos silenciosamente aos ouvidos da humanidade ensinando a ela que o egoísmo é o caminho para o sucesso.
Eu só queria entender o que nos permite ser assim tão frágeis e ao mesmo tempo tão destruidores. Eu só queria entender porque minhas palavras amam tanto ser escritas, talvez para que se tornem um vento contrário às atitudes que tomamos. Não há erro em ser feliz, mas o há em não enxergarmos a felicidade no outro. Tudo nos é permitido, cabe a cada um de nós escolher e tornar a vida um processo real e eterno.
Não pertenço ao grupo dos ricos ou ao grupo dos pobres, nem ao dos ignorantes ou dos intelectuais. Me recuso a aceitar os grupos. Cada um, em qualquer lugar, pode tudo o que quiser. Acredite, ame, viva. Somos um pequeno pedaço de uma humanidade inteira, somos semente que pode soprar o amor, e não as mentiras.
Trajano Amaral