domingo, 14 de setembro de 2014

Soluções Imediatas

Soluções Imediatas

Quando estamos diante de uma parede parece-nos muito difícil transpassá-la, pois seria preciso quebrar, se sujar, se machucar; isso se tivéssemos forças para tal ato, isso se tivéssemos ferramentas para tal ato, já que nossas unhas e dentes não são capazes de roer e nossos ossos não têm forças para quebrar a parede. Ficamos cerceados por um limite de possibilidades e cada vez mais nos enfiamos nele sem rumo e sem conhecimento do que somos ou seremos. A maioria de nós dá cabeçadas sem parar e se enche de remédios para inibir a dor. Então nos contam sobre espiritualidade e ela se manifesta de tantas formas, já que podemos morrer para que nossa alma atinja o outro lado com a graça divina e, do outro lado costuma haver o paraíso e o inferno e nossa obediência determinará para onde iremos. Uma solução imediata, obedecer sem questionar e esperar o lado de lá até que chegue, não por minhas mãos, mas pelo pontapé da divindade que decide se entro ou não, isso vai depender de o quanto a agradei. Porque afinal, quem mais do que uma divindade para querer ser agradada com valores humanos? Há mais caminhos, o dos amigos mais evoluídos do que nós que estão do outro lado da parede e nos visitam invisíveis a quase todos, menos aos que mediam sua presença, eles nos conduzem como boas marionetes à luz e ao conhecimento, influenciando-nos em nossas ações, influência que quase sempre desobedecemos porque os invisíveis mediados presos entre nós nos influenciam ao errado. Enfim. Se acertamos obedecemos os bons, se erramos obedecemos os maus e agora a divindade tem vários assistentes para nos chutar quando a desagradarmos. Mas ainda existem outros caminhos, podemos tomar cogumelos ou mascar sementes e ver tudo fluindo e se mexendo ao nosso lado e acreditar que isto nos dá uma consciência expandida e nos faz entender e entrar em contato com o outro lado. Mas amanhã teremos que engolir novamente nossos brinquedinhos para rever o lado perdido, que jamais conhecemos exatamente e não sabemos como ir até lá. Viciamo-nos na busca. Mas não buscamos nada. E os imbecis acreditam que estar entorpecido os põe em contato com sua concepção de divindade. Começam a falar devagar se achando superiores em serenidade quando na verdade seus cérebros já estão fritando e se tornando massas inúteis revestidos de fúteis e limitados pensamentos sobre os mundos que jamais conhecerão. Essas são as soluções imediatas que não me deixam fazer novos parágrafos porque tudo é cuspido de uma vez só. Estamos diante da parede e queremos de forma rápida descobrir o outro lado e cada um desenha o seu deus conforme a sua necessidade e esse desenho é feito atrás da parede, com o olhar cercado e limitado e acreditam que ele é o além. Além do que? Com isto flutuamos na crença do lá, o lugar onde tudo se dará, onde poderei colher maçãs ao lado de leões vegetarianos, ou onde sentarei ao lado do romano de barba branca e seus anjos espadachins, ou onde o moço do cachimbo me ensinará como cuidar da minha saúde, ou ainda, sem estar lá, estando expandido e conectado com o cosmos, como já estavam do lado de cá, quando punham pirâmides em suas águas para purificá-las e adaptá-las ao seu organismo ligado às divindades superioras, mas é claro, comendo um bom biscoitinho recheado junto com a água purificada para sublimar o bem dentro do próprio corpo. Mas a parede sempre ficou ali e jamais irá sair e esses pobres coitados só verão nela suas limitadas e disformes sombras que se movem com medo da luz, se escondendo atrás de seus corpos que buscam soluções imediatas. E a mais imediata é se cegar e achar que está vendo a luz. São todos iguais. Todos moradores de um só parágrafo no meu discurso.


Descobri que poderia, misturado às suas sombras, procurar, ou melhor, perceber a parede, vendo o que podia ver, tocando o que podia tocar, cheirando o que podia cheirar. Encontrando fendas, ruídos, marcas, histórias, sem imediatismos, sem divindades, sem temor ou coragem, apenas toque e contato. Não expando a minha mente com alucinógenos, mas já percorri muitos quilômetros descalço sentindo o chão embaixo dos meus pés, ou sobre eles como nos diz a gravidade; e nesse roçar de texturas do meu corpo com a parede encontrei uma porta para o outro lado e vi que essa porta me levava para dentro de mim, e aí sim, não encontrei uma divindade, mas encontrei o infinito. Vi que todos e tudo estavam ali, num único eu, num único lugar onde tudo se encontra e nunca termina, um lugar onde os imbecis e suas soluções imediatas são completamente incapazes de entender, ou até mesmo de vislumbrar. Não é preciso fechar os olhos para estar além, é preciso apenas olhar e seguir qualquer caminho, porque o caminho somos nós quando estamos despidos de sombras, verdades e paredes; e não temeremos mais o nosso corpo, os nossos desejos e os nossos segredos. E tudo nos será entregue e revelado. Já não preciso mais das paredes, já não me obscuro no caminho, porque sou o caminho, como cada um de nós o é. Abram os olhos. É mais lindo do que vocês jamais imaginaram algum dia.  

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