domingo, 12 de julho de 2015

mãos delicadas

Quando eu era adolescente, cheguei a trabalhar com serviços pesados, daqueles que geram calos na palma das mãos. Ainda na adolescência, fiz treinamento de artes marciais, daqueles que geram calos do outro lado das mãos. Elas se tornaram fortes para pegar e para bater. No entanto, sempre tive mãos suaves e delicadas e sempre toquei as pessoas com gentileza e harmonia. O que sempre determinou a forma como toco as pessoas não foi a força das mãos e sim a intenção do toque. Isso me deu mãos suaves e sensíveis, mãos delicadas.

A capacidade de ser rude pode estar presente e exposta nas mãos, na forma como tocam, nas intenções quando tocam; mas o guia as mãos, é o que está dentro de nós, o que é anterior ao contato e para onde estamos olhando quando o fazemos. Uma força que nos impulsiona a nos sobrepormos ao outro, como se isto fosse nos dar algo de bom ou pelo menos lucrativo, ou ainda, provar nossa superioridade de alguma maneira, então tocamos com força e brutalidade. Também olhamos o contato após o outro, como se o nosso ato, do início ao fim fosse o elemento mais importante, minha ação, atravessando o outro em busca da sua conclusão, como se não houvesse ninguém ali, pelo menos ninguém com importância real. Confuso? Parece filosofia densa? É, parece mesmo. É que com as palavras também podemos ser rudes, atravessar o outro como se não quiséssemos tocá-lo e ficar nele, e fazemos isto quase todas as vezes.

É preciso muito pouco para que usemos palavras de agressividade ou tom de voz agressivo. E é preciso somente este pouco para que muitos agridam com mãos, paus, pedras, armas. Às vezes é preciso menos do que esse pouco para que tudo isso aconteça. E muitos se ofendem, e muitos se machucam, e muitos morrem. E o ódio se torna a força motriz de nossas relações. Forçar, bater, tomar, impor. Subjugar o outro em função do que nem é realmente um desejo do eu.  E aprendemos a ouvir apenas o que queremos ouvir, da forma como queremos ouvir. Não importa o que o outro diga, antes dele começar, já sabemos o que dirá, já temos nossas reações pré-estabelecidas e o ódio e a agressividade já começam a ferver o nosso sangue.  Somos escravos perfeitos do ódio. E odiamos quando o ódio nos fere. E odiamos quando o nosso ódio não fere. E odiamos se não sentirmos ódio porque somos fracos. E odiamos.

Uma amiga há poucos dias me contou uma história, sobre alguém que a maltratou emocionalmente. Ela sentiu raiva, quis revidar, se vingar, e me perguntou o que eu achava disso. Devolvi a pergunta, querendo saber se a vingança seria algo que ela realmente queria fazer, ou seriam ações e tempo gasto dedicados à pessoa, ou seja, ainda estar perto. E concluí dizendo que se ela olhasse pelo ponto de vista do outro e o quisesse feliz, entenderia tudo que ele havia feito e não sentiria mais essa vontade. Acho que ela entendeu. É preciso priorizarmos a felicidade, não importa quem seja o dono dessa felicidade. Se nós, ou se o outro. O que importa e deve importar é que sempre haja alguém feliz, porque pessoas felizes fazem mais pessoas felizes e o contágio seria incontrolável.

E se é para sermos felizes e fazemos felizes, podemos tocar com delicadeza, com as mãos ou com as palavras. Trabalho com pessoas, lido com pessoas todos os dias e sempre me dizem que sou muito gentil. E por que eu não seria? Pois quando o sou, os outros também são gentis comigo e todos estamos sempre bem. Não é que eu tenha uma alma sublimada, é só pensar, é uma troca, e quero receber tudo que me faça bem, e quero que me toquem com suavidade. É só uma troca. Se trocarmos ódio, receberemos ódio; se trocarmos delicadeza, receberemos delicadeza.

Por isto, tenho mãos e palavras delicadas. E isso não me faz deixar de ter mãos e palavras fortes. Por isto tenho felicidade e não ódio. Por isto, peço a você com humilde delicadeza que compartilhe essas palavras com alguém.

Obrigado pela leitura.

Fiquem em paz.


Trajano Amaral   

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