terça-feira, 30 de setembro de 2014

Utopia do que não é meu

Hoje quando me sentei para esperar o meu ônibus, faltavam uns quinze minutos e isto foi há uma hora atrás. Tinha levado a Natália no ponto dela e fui para o meu. Um cara de uns quarenta e poucos anos se aproximou de mim e perguntou se eu ia pagar o ônibus com dinheiro ou cartão, como não tenho cartão e não tenho o costume de mentir, disse que era dinheiro; até mesmo porque ele era do meu tamanho e não representava perigo algum para mim. Sentou-se do meu lado e começou a me contar que ganhava cinco mil reais, morava em um bairro bacana e usava o dinheiro do ônibus para pagar a faculdade dos filhos. Claro que não acreditei, mas ele não estava bêbado nem fedendo, era uma pessoa comum ganhando meus dois reais em troca de me pagar a passagem, ou seja, eu não estava dando nada a ele. O ônibus veio rápido, entramos, passamos na roleta e ele se sentou ao meu lado. Começou a me falar que ele na verdade não morava no bairro que tinha falado, apenas dormia lá, que ele morava debaixo do céu, no ônibus, ou seja, onde ele estivesse, porque nada era dele, ele só usava enquanto estava ali. Desceu logo em seguida, até mesmo porque ele não é o conteúdo principal desse texto. Nada era dele, só usava quando estava ali. Soou interessante essa afirmação e resolvi me permitir pensar uma utopia, e classifico assim porque não tenho qualquer esperança que isto exista um dia, mas poderia ser interessante. A ideia seria tornar tudo transitório, destituir toda propriedade, vou passear na proposta por alguns elementos.

 O primeiro seria o trabalho, algo que sei que as leis trabalhistas jamais iriam permitir. E se o trabalho fosse transitório? E se eu pudesse trabalhar por um tempo em uma empresa e depois de um período vagasse um lugar em outra e eu fosse pra lá e alguém que trabalhava em outra ficasse no meu lugar? Seria diversificado, seria interessante, haveria uma troca de experiências muito bonita. Por um lado seria bem interessante para as empresas e para os trabalhadores. Claro que uma adaptação causaria um certo trabalho extra no período de troca, mas seria compensada pela felicidade que causaria nas pessoas, viver novos ares, novas metas, novos colegas de profissão, aprender e ensinar coisas diferentes; o conhecimento dos profissionais mudaria muito nesse sentido, certamente a qualidade do produto final seria melhor e mais diversificada, além de aumentar a qualidade de vida do trabalhador. E poderia ainda ser maior, poderíamos trocar de profissão (claro que para aquelas nas quais temos habilidades, nem tudo uma pessoa pode fazer), experimentaríamos assim uma nova vida e voltaríamos pra anterior se quiséssemos ou ficaríamos passeando entre elas pra sempre. E o aprendizado contínuo faria com que todos crescessem cada vez mais.

E se a faculdade fosse assim? Acabar com os cursos, oferecer todas as matérias a todos. O aluno entra sem compromisso com nenhum curso e tem todas as matérias à sua disposição, claro que com seus pré-requisitos necessários, não dá pra comprometer o aprendizado, mas ele pode estudar o que quiser e aprender o que quiser. Imaginem os profissionais pluralizados que não sairiam dali? Que com certeza sustentariam o trabalho transitório. O aluno poderia passear entre os departamentos, estudar muito ou pouco, dependendo dos seus desejos, sem conhecimento engessado. E o melhor, ele não precisaria se formar em nada, apenas teria muito conhecimento que contribuiria imensamente para sua vida e para a vida de muitas outras pessoas. Os cursos perderiam a grade, deixariam de existir. As universidades não ofereceriam diplomas, e sim, única e exclusivamente, conhecimento.

E as casas? Poderiam também ser transitórias. Mora-se por um tempo em uma casa, depois se vai para outra e deixa a que se estava livre para alguém. Isto claro dependeria da transitoriedade dos empregos e escolas, até mesmo para os filhos pequenos. Trocar de lar, de vizinhos, conhecer mais pessoas e lugares, conhecer amigos novos, manter contato com os velhos ou deixar pra trás, respirar novas formas de vida, novos sabores, novos aromas, mudar, ir, voltar, os mais mansos ficariam perto, mudando talvez de bairro ou cidade, mas os mais ousados de país ou continente. O ser humano tem pernas para se locomover e estar fincado num lugar só o aprisiona, por que não aproveitar essa capacidade para conhecer cada vez mais o mundo e as pessoas que vivem nele? Há limites naturais e geográficos? Claro que não, com os sistemas de transportes que já estão desenvolvidos, montanhas ou oceanos não são mais elementos separadores, temos tecnologia para ir de um lugar para o outro com rapidez, segurança e conforto. E a facilidade de comunicação gerada pela internet? As escolhas podem ser medidas ou feitas por rumo, mas as informações estariam sempre disponíveis aos que as quisessem. Não haveria limites para se descobrir a verdadeira essência da vida e sua transitoriedade. Pra que ser dono da casa se ela serve como prisão? Se ela limita os meus horizontes, diminui o número de pessoas que vamos conhecer, faz com que saibamos menos e tenhamos menos alegrias, se ela nos amarra e nos priva de paisagens e histórias que estão por todos os lados? Onde está a segurança em se encaixotar e não ver mais nada? Ganharíamos o mundo e tudo e todos seriam mais felizes.

As escolas para as crianças e adolescentes. Bem, para haver a transitoriedade das casas seria necessário que as escolas fossem transitórias e os alunos pudessem mudar sempre que desse vontade. Isso além de ampliar os horizontes como já temos falado, seria um elemento de igualdade inestimável. Para que pudesse acontecer, todas as escolas em toda a parte do mundo deveriam seguir o mesmo padrão de qualidade. Ou seja, ninguém tem menos e ninguém tem mais. Não preciso falar mais nada sobre isso.

Estaríamos construindo um mundo muito maior do que o que podemos alcançar com nossos olhos, ou ainda menos, alcançar com as nossas mãos. Ou pior, alcançar com nosso conhecimento repleto de verdades pré-concebidas que não nos deixam ver sequer quem somos. O mundo se abriria e nos abriríamos para o mundo. Conheceríamos mais sobre as pessoas e, consequentemente, sobre nós mesmos. O preconceito certamente acabaria, o ódio e a intolerância também. Seríamos todos irmãos, como gostam de afirmar os religiosos, seríamos todos um só, como gostam de dizer os quânticos, só sei de uma coisa, seríamos felizes, livres, inteligentes, amados, amantes, o mundo seria o melhor lugar para se viver. Todos os problemas acabariam. Amantes?

E se a posse do amor fosse transitória? Você está com alguém, moram na mesma casa, mudam-se para várias casas e vários países, constroem uma vida juntos e, em certa ocasião, mudam-se separados e amam outras pessoas naquele momento, até que voltem a se  encontrar, ou nunca mais façam isto. A posse sobre o outro acabaria. O medo do outro também. O amor seria cada vez mais reforçado e aprenderia que não precisa da presença material do corpo do outro para sobreviver. Não iríamos querer amar um pra receber o amor desse um de volta, porque isso não passa de escambo, uma troca mesquinha e egoísta. Não há amor sem liberdade plena e nem liberdade plena sem amor, mas isto não se faz por meio de troca, é uma necessidade natural do ser humano, que o ser humano se aprisiona para não ouvir. Não temos, não possuímos, apenas sentimos. E a pessoa amada voltaria com mais amigos, com mais amor, com mais conhecimento, mais livre, mais perfeita, e amor aumentaria. O toque não seria mais posse, seria troca e perfeição.

Mas isto não passa de uma utopia. Estamos muito certos de que nos acorrentar a verdades que gerem esse mundo é o melhor a ser feito. Afinal de contas, quantos milênios já vivemos regidos por esta verdade, olha só onde chegamos; podemos atravessar um oceano em algumas horas, podemos falar com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo de forma imediata. Podemos fazer guerras nucleares extinguir a vida no planeta. Podemos criar religiões que buscam deus e aniquilar os outros através de intolerância. Podemos matar milhões e milhões de crianças de fome em locais de vida miserável. Podemos ver a violência nas grandes cidades aumentar cada vez mais. Podemos desmatar e poluir o planeta. Podemos ter rios podres e extinguir várias espécies de animais por ano. Podemos dopar nossas crianças com ritalina para que elas não pensem mais em liberdade. Podemos aplaudir a corrupção e ver como alguns bilionários são mais importantes do que milhares de miseráveis. Podemos matar por amor porque somos donos da pessoa amada. Podemos aniquilar a arte. Podemos destruir o ar e o ozônio que nos protege do fogo do inferno, ou melhor, do fogo do sol. Podemos, guiados pelo nosso egoísmo, fazer tudo para que a vida do outro acabe, mesmo que isto acabe com a minha, mas terei o prazer de ver o outro se fuder primeiro. Podemos criar moda, roupas, esconder nossos corpos até os poder vender por qualquer merda de fama ou dinheiro. Podemos condenar o corpo como pecado pagar pra possuí-lo de forma mesquinha. Podemos nos alimentar como imbecis e matar nossos corpos com corantes e gorduras saturadas. Podemos mentir e criar um deus para nos punir, e aí mentimos escondido. Podemos matar, porque a vida não importa.

É, minha utopia é mesmo uma utopia. Quando olho para o mundo como está tenho uma certeza muito grande. O ser humano está muito seguro de saber que está fazendo o correto. Acertamos sempre. Sempre estivemos no caminho certo. Aniquilação é natural. Liberdade é utopia e deve ser combatida. Combata a liberdade e ame sua prisão e nesta prisão, olhe a miséria humana que domina o mundo e diga: - isto me faz feliz, porque essa bosta toda é minha. Afinal, o que mais você precisa além de possuir?


Dormirei. Sabendo que não sonhei. Mas vislumbrei uma utopia. 

Um comentário:

  1. O texto é maravilhoso e nos faz refletir sobre muitas coisas em nossas vidas.

    Eu senti lendo o segundo paragrafo em diante do texto foi uma sensação real de satisfação plena.
    Lembrei das noite em que de costumo deita em minha cama, e agado a luz do meu quarto. fico sonhado acordada com os meus pensamentos simples. De viver uma vida plena.

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