Moro em uma cidade mediana, a
conheço de trás pra frente, sou quase uma gps humano. Conheço mais pessoas do
que seria a minha capacidade de listar. Já viajei a tantas cidades que não me
lembro de todas. Falo mais duas línguas além da minha e arranho uma terceira. Tenho
internet no trabalho e em casa. Sou dono do meu trabalho. Sou artista. Posso escrever
e dizer basicamente o que quiser. Ou o que os outros quiserem ouvir. Não vejo
TV. Não leio jornais ou notícias na web. Posso estar em qualquer lugar. Mas então,
onde eu nunca estou?
Vivemos muitas expectativas,
muitos planos, muitas projeções do que poderemos ser, ou do que poderíamos ter
sido. Tudo o que não fiz. Tudo o que desejo. Tudo que parece estar fora do
alcance. Pensamos em tantas coisas por tanto tempo que parece não sobrar tempo
para estarmos no único lugar seguro de qualquer destruição. Em nós mesmos. São tantos
desejos e conquistas necessárias para ser feliz, quando nada me faz mais feliz
do que sentar e escrever. Então por que não escrevo o tempo todo? Todos
sentimos medo da solidão e isto nos causa inquietude, mas com tantos
personagens à minha volta, que às vezes me tiram da cama, como posso me ver só?
Não há solidão, há o meu tempo e eu devo caminhar com ele, ou ficar parado às
vezes ao seu lado. Sempre precisamos de mais dinheiro, mesmo que já possa tomar
vinhos importados, comprar bons livros, pagar o aluguel do meu curso e as
outras contas, comprar roupas, sapatos, comer salmão e picanha, enfim; por que
precisar de tanto? Quero uma casa? Junte, espere, more no lugar certo. Ou não
more, viva por aí, conhecendo mais mundo do que será capaz de contar. Me digo
várias vezes isto. Amo esta e muitas outras ideias que eu tenho. Amo quem eu
sou. Amo minha capacidade de criar e pensar. Mas onde eu ainda não estou?
Amar é um verbo extremamente
usado em nossa sociedade. Temos muitos, para não dizer incontáveis conceitos de
amor. Todos, no entanto, com uma raiz em comum: eu quero. Mesmo que eu ame para
possuir, ou que eu liberte o outro para que isto me faça feliz e sublimado,
ainda assim: eu quero. Não posso amar do mesmo jeito todos os dias. Pode ser
que na segunda eu ame ouvir a sua voz, e na terça eu ame ouvir outra voz, e na
quarta eu ame o direito de não ouvir voz nenhuma. E na quinta eu queira sexo. E
na sexta eu queira sorvete. Não pode haver uma regra. E se não, também não pode
haver um objetivo. Amar para que? Para ser feliz? Para ter companheirismo? Não posso
fazer nada do que disse até agora se eu não respirar, então se respiro já é
tudo que preciso para ser feliz. E por que não estamos nunca plenamente felizes?
Porque não estamos no único lugar onde deveríamos estar, em nós mesmos.
É preciso encontrar um eu
verdadeiro, isento dos eus do mundo. Não quero estar comigo para curar meu stress,
ou para salvar a humanidade, ou para me tornar grande e glorioso, ou pra merda
nenhuma. Tenho que estar no eu, porque é isto que eu sou, e só assim vou
existir de verdade. Criamos tanto, desejamos tanto, que quando nossos desejos
não são todos atendidos (e jamais serão porque nossa capacidade de criação de
expectativa é ilimitada) sofremos e abandonamos a felicidade. Isto mesmo,
abandonamos, porque ela já nasce em nós, não precisamos buscá-la, apenas a
deixar existir. Desenhamos possíveis amores, carreiras, perversões, glórias,
riquezas, espiritualidades e tantas coisas que seria demasiado falar, até
porque muitas aspirações eu nem conheço. Desejamos tanto que passamos a nos
sentir distantes e fracos e esses desejos no desertam em um mundo imenso demais
para que possamos nos encontrar.
Onde eu estou? Tento estar em
todo lugar o tempo todo. Maldita rede que nos transporta numa velocidade
impressionante e nos perdemos no caminho em busca da satisfação vinda de
outrem. De algum lugar. De alguma divindade. De alguma qualquer coisa, tanto
faz, são tantas. E nessa perda construímos cidades com reservatórios de água e
acabamos com a água. Construímos casas para nos proteger e elas nos sufocam e
nos aprisionam. Construímos templos para encontrarmo-nos com o divino e
distribuímos ali o nosso ego por sermos os únicos no caminho certo, salvando os
outros. Construímos estradas e máquinas que voam, onde nos perdemos. Construímos
guerras, bombas, vírus, doenças, miséria, medo, egoísmo. Regulamos nossos
desejos sexuais em regras morais que atormentam o corpo e o fazem desejar mais
do que o natural. Construímos roupas para nos esconder e expomos o pior de nós
nas etiquetas. Construímos redes sociais para interagir e cada vez mais não
sabemos do outro, não de verdade. Cada vez mais não nos tocamos, não nos
olhamos, não somos nada. Tentamos construir tudo e estar em todo lugar. E mesmo
que estejamos, não estaremos em lugar algum, porque nunca estivemos em nós.
Eu não construí muitas coisas,
mas construí algo muito grande e só agora percebo que um pedaço disso, o mais
importante, o que nos levaria a uma liberdade plena, sem escravidão moral;
esteve corrompido por um desejo, uma projeção, uma aspiração que distorcia sua
verdadeira essência. Eu via de forma distorcida a parte mais bela da minha
criação, por causa de uma expectativa vil e inútil. Hoje entrei em mim e senti
que desperdicei tanto e tantos, tantas vezes. Hoje entrei em mim e me senti
perdido, onde eu nunca havia estado de verdade. Onde nunca estamos, em nós
mesmos.
É preciso parar. Frear. Diminuir os
desejos e aspirações, principalmente os que lidam com a posse ou com o outro. É
preciso sentir a pureza que há em nós e não temer a cultura de acúmulo. Não temer
a reprovação dos culturados. É preciso enxergamo-nos como seres completos,
conectados a tudo e a todos. É preciso abandonar a individualidade dentro do
eu, onde cabem e estão todos. Tente ficar alguns minutos sem pensar todos os
dias, nossos pensamentos são reproduzidos em série pelas nossas expectativas e
não deixam que nossa mente encontre sua verdadeira essência. Tente parar por
alguns minutos todos os dias e tirar toda a cultura de você, só assim perceberá
que não tem nada, e por isto, já tem tudo o que precisa.
Onde não estou, é onde mais
preciso estar, em mim. Esqueça seus desejos, seus medos, e apenas olhe. Não pense,
esteja. Tudo já lhe foi dado. Não há nada a conquistar, por isso jogamos a vida
fora o tempo todo. Domine os seus pensamentos. Pare os seus pensamentos. Saia
do eu cultural que contaram que você é. Não, você não é isto. Esteja no único
lugar em que deve estar, em você. Concerte tudo o que fez. Sempre há tempo.
Fique em paz.
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