domingo, 5 de abril de 2015

onde não estou

Moro em uma cidade mediana, a conheço de trás pra frente, sou quase uma gps humano. Conheço mais pessoas do que seria a minha capacidade de listar. Já viajei a tantas cidades que não me lembro de todas. Falo mais duas línguas além da minha e arranho uma terceira. Tenho internet no trabalho e em casa. Sou dono do meu trabalho. Sou artista. Posso escrever e dizer basicamente o que quiser. Ou o que os outros quiserem ouvir. Não vejo TV. Não leio jornais ou notícias na web. Posso estar em qualquer lugar. Mas então, onde eu nunca estou?

Vivemos muitas expectativas, muitos planos, muitas projeções do que poderemos ser, ou do que poderíamos ter sido. Tudo o que não fiz. Tudo o que desejo. Tudo que parece estar fora do alcance. Pensamos em tantas coisas por tanto tempo que parece não sobrar tempo para estarmos no único lugar seguro de qualquer destruição. Em nós mesmos. São tantos desejos e conquistas necessárias para ser feliz, quando nada me faz mais feliz do que sentar e escrever. Então por que não escrevo o tempo todo? Todos sentimos medo da solidão e isto nos causa inquietude, mas com tantos personagens à minha volta, que às vezes me tiram da cama, como posso me ver só? Não há solidão, há o meu tempo e eu devo caminhar com ele, ou ficar parado às vezes ao seu lado. Sempre precisamos de mais dinheiro, mesmo que já possa tomar vinhos importados, comprar bons livros, pagar o aluguel do meu curso e as outras contas, comprar roupas, sapatos, comer salmão e picanha, enfim; por que precisar de tanto? Quero uma casa? Junte, espere, more no lugar certo. Ou não more, viva por aí, conhecendo mais mundo do que será capaz de contar. Me digo várias vezes isto. Amo esta e muitas outras ideias que eu tenho. Amo quem eu sou. Amo minha capacidade de criar e pensar. Mas onde eu ainda não estou?

Amar é um verbo extremamente usado em nossa sociedade. Temos muitos, para não dizer incontáveis conceitos de amor. Todos, no entanto, com uma raiz em comum: eu quero. Mesmo que eu ame para possuir, ou que eu liberte o outro para que isto me faça feliz e sublimado, ainda assim: eu quero. Não posso amar do mesmo jeito todos os dias. Pode ser que na segunda eu ame ouvir a sua voz, e na terça eu ame ouvir outra voz, e na quarta eu ame o direito de não ouvir voz nenhuma. E na quinta eu queira sexo. E na sexta eu queira sorvete. Não pode haver uma regra. E se não, também não pode haver um objetivo. Amar para que? Para ser feliz? Para ter companheirismo? Não posso fazer nada do que disse até agora se eu não respirar, então se respiro já é tudo que preciso para ser feliz. E por que não estamos nunca plenamente felizes? Porque não estamos no único lugar onde deveríamos estar, em nós mesmos.

É preciso encontrar um eu verdadeiro, isento dos eus do mundo. Não quero estar comigo para curar meu stress, ou para salvar a humanidade, ou para me tornar grande e glorioso, ou pra merda nenhuma. Tenho que estar no eu, porque é isto que eu sou, e só assim vou existir de verdade. Criamos tanto, desejamos tanto, que quando nossos desejos não são todos atendidos (e jamais serão porque nossa capacidade de criação de expectativa é ilimitada) sofremos e abandonamos a felicidade. Isto mesmo, abandonamos, porque ela já nasce em nós, não precisamos buscá-la, apenas a deixar existir. Desenhamos possíveis amores, carreiras, perversões, glórias, riquezas, espiritualidades e tantas coisas que seria demasiado falar, até porque muitas aspirações eu nem conheço. Desejamos tanto que passamos a nos sentir distantes e fracos e esses desejos no desertam em um mundo imenso demais para que possamos nos encontrar.

Onde eu estou? Tento estar em todo lugar o tempo todo. Maldita rede que nos transporta numa velocidade impressionante e nos perdemos no caminho em busca da satisfação vinda de outrem. De algum lugar. De alguma divindade. De alguma qualquer coisa, tanto faz, são tantas. E nessa perda construímos cidades com reservatórios de água e acabamos com a água. Construímos casas para nos proteger e elas nos sufocam e nos aprisionam. Construímos templos para encontrarmo-nos com o divino e distribuímos ali o nosso ego por sermos os únicos no caminho certo, salvando os outros. Construímos estradas e máquinas que voam, onde nos perdemos. Construímos guerras, bombas, vírus, doenças, miséria, medo, egoísmo. Regulamos nossos desejos sexuais em regras morais que atormentam o corpo e o fazem desejar mais do que o natural. Construímos roupas para nos esconder e expomos o pior de nós nas etiquetas. Construímos redes sociais para interagir e cada vez mais não sabemos do outro, não de verdade. Cada vez mais não nos tocamos, não nos olhamos, não somos nada. Tentamos construir tudo e estar em todo lugar. E mesmo que estejamos, não estaremos em lugar algum, porque nunca estivemos em nós.

Eu não construí muitas coisas, mas construí algo muito grande e só agora percebo que um pedaço disso, o mais importante, o que nos levaria a uma liberdade plena, sem escravidão moral; esteve corrompido por um desejo, uma projeção, uma aspiração que distorcia sua verdadeira essência. Eu via de forma distorcida a parte mais bela da minha criação, por causa de uma expectativa vil e inútil. Hoje entrei em mim e senti que desperdicei tanto e tantos, tantas vezes. Hoje entrei em mim e me senti perdido, onde eu nunca havia estado de verdade. Onde nunca estamos, em nós mesmos.
É preciso parar. Frear. Diminuir os desejos e aspirações, principalmente os que lidam com a posse ou com o outro. É preciso sentir a pureza que há em nós e não temer a cultura de acúmulo. Não temer a reprovação dos culturados. É preciso enxergamo-nos como seres completos, conectados a tudo e a todos. É preciso abandonar a individualidade dentro do eu, onde cabem e estão todos. Tente ficar alguns minutos sem pensar todos os dias, nossos pensamentos são reproduzidos em série pelas nossas expectativas e não deixam que nossa mente encontre sua verdadeira essência. Tente parar por alguns minutos todos os dias e tirar toda a cultura de você, só assim perceberá que não tem nada, e por isto, já tem tudo o que precisa.

Onde não estou, é onde mais preciso estar, em mim. Esqueça seus desejos, seus medos, e apenas olhe. Não pense, esteja. Tudo já lhe foi dado. Não há nada a conquistar, por isso jogamos a vida fora o tempo todo. Domine os seus pensamentos. Pare os seus pensamentos. Saia do eu cultural que contaram que você é. Não, você não é isto. Esteja no único lugar em que deve estar, em você. Concerte tudo o que fez. Sempre há tempo.


Fique em paz. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário