sábado, 2 de maio de 2015

os olhos dos outros

Um dia, sentado na escada do centro de línguas da UFJF, hoje faculdade de letras, eu acho. Esperando minha aula de francês, eu estava escrevendo. Já não era mais um adolescente. Não me lembro o que era, só me lembro que um colega parou do meu lado e me perguntou o que eu tinha usado. Não entendi. Como assim usado? E ele perguntou, o que você usou para ficar assim? Então observei que as minhas mãos estavam sacudindo, meus pés se mexiam, eu realmente estava estranho e ele pensando que eu tinha cheirado cocaína. Expliquei a ele que eram personagens, que não uso nada além das histórias. Nem sei como é tomar um porre, nunca fiz isso. Cresci vendo meus colegas aprenderem a fumar maconha, nunca fiz isso. Sempre quis uma coisa, controle. E sempre tive esse controle para poder me entregar às histórias e personagens sem medo. Perder o controle dentro da criatividade, sabendo voltar a ele. Não escrevo bêbado ou chapado. Nunca fiquei bêbado ou chapado.

Aos olhos dos outros, de muita gente, sempre fui visto como louco ou irresponsável, insano, tarado, perdido e tantas coisas que não saberia nominar. Só porque olho através dos olhos dos meus personagens e acredito no que vejo. Vejo pessoas diferentes de mim que me ensinam a respeitar o outro sendo ele quem ele quiser ser. Aprendi com os meus personagens que todos os sentimentos são verdadeiros e dignos de serem respeitados, dignos de existir. Cada um deles é único e ao mesmo tempo, contém o universo inteiro dentro de si. E assim eles me ensinam a respeitar, entender, ouvir, amar e servir a algo que seja maior do que eu. Eles me ensinam que existe muito mais do que os meus olhos possam ver sozinhos e, por isso, olho pelos meus e pelos deles. Cada personagem me permite ver mais longe, conhecer mais, amar mais o mundo à minha volta, viver mais de forma pura e tornar a minha arte mais competente e bela.

Aos olhos dos outros já fui chamado de tudo, de doido, até de gênio. Não sou nada disso, só sou um homem de muitos personagens e muitas palavras. E conhecer e tocar a sua essência faz de mim alguém que não mente, não fere, não maltrata, não engana ou prejudica. Porque todo indivíduo é um ser único e pleno e preciso de cada um para existir. Amo todas as pessoas do mundo, até as que não quero perto de mim por que fazem mal a mim, a elas e a todos que tocam, porque mentem, enganam e acreditam que estão sendo boas e espertas, mas são pobres, fracas e covardes. Cada personagem é como se eu tivesse mais alguém dentro de mim e pudesse olhar pelos olhos de outro e ver mais do que tinha visto até ali. Isso me faz crescer e evoluir, isso me torna humano.

Somos todos iguais, independente de quem somos. Respiramos da mesma forma, nascemos do mesmo jeito e morreremos um dia, deixando somente nossos corpos ou nossa história com ele. Já tenho história para deixar, uma história que poucos ainda conhecer porque tentam me ver com olhos assustados. E pedem o tempo todo que eu pare de ir além e fique parado com todos. E tentam me parar. E contam histórias sobre mim que desparecerão na fraqueza de suas palavras vãs. Mas um dia olharei através de seus olhos e entenderei seus motivos e direi, olha quem você é. Se veja, se entenda e aprenda. Não comigo, mas com você mesmo.


Sou apenas um homem repleto de personagens e de palavras. Por isso não preciso de mentiras ou de esconderijos. Porque através dos meus e dos olhos dos outros que vejo, está a verdade mais pura que pude conhecer: somos todos um só. 

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