sábado, 1 de agosto de 2015

trincheiras

Existem as guerras para que existam as trincheiras. Existem as trincheiras para que julguemos o medo como nosso maior aliado e protetor. E qual a maneira mais eficiente de produzir um bom medo? É simples. Pegue uma criança e conte a ela muitas mentiras sobre a liberdade, dizendo que ela é tentadora e a levará ao mau caminho. Ensine a rotular e julgar as pessoas pelo que vê e sabe delas superficialmente, olhar dentro é completamente abominável. Esses rótulos nasceram de dogmas criados pelos nossos ancestrais, os mesmos que criaram guerras e divisões de classes e divisões étnicas. Quando essa criança tiver dúvidas e souber perguntar, não responda, grite ou bata para que ela saiba que cometeu um erro. Perguntar? Não, ter dúvidas, ela não deve ter dúvidas sobre o que já está definido e é assim porque é. A tarefa vai ser dura, então peça ajuda à mídia e ao mercado, ensine a ela que deve ser rica e bem sucedida, que não é bela o suficiente como as da TV, mas deve se sentir superior. Faça-a querer comprar muito, muito mais do que precisa. Ensine-a usufruir dos amigos antes de descartar.  Não esqueça o mais importante. Todos são assim e pensam assim, e se ela for diferente, terá problemas e não será aceita, então, o mais importante, ensine a ela que a opinião dos outros a respeito dela é o que mais importa.

Feito isso ela crescerá atrás de trincheiras porque o mundo e os seus sentimentos são monstros imensuráveis tentando matá-la. A liberdade é a verdadeira merda na qual ela irá afundar. Os sentimentos que incitam à liberdade são a maior tentação de sua vida. Combata-os. É tudo que ela deve saber. Assim você a esconderá atrás de trincheiras que contam a ela o tempo todo que o medo a mantém viva, segura e feliz. E o mundo continuará o mesmo. E você sabe que dará esse medo a alguém porque ele é seu e seu mundo sempre foi olhando os sacos mortos das trincheiras.

Mas é que a lua está tão linda lá em cima que não consigo olhar os sacos. Tenho que sair para ir ver o luar.

Seja um guerreiro. Não se esconda atrás das trincheiras que não te protegem. Elas matam você. Elas sucumbem os seus desejos e os seus sentimentos e robotizam suas vontades e sua individualidade se torna um bem servido aos covardes. E você se torna covarde como eles. É hora de lutar de peito aberto em campo aberto, sob a luz da lua. É, os tiros passarão mais perto de você e te atingirão mais vezes e muito antes do que atingirão os outros. É, vou morrer primeiro, mas só porque estou vivo e livre. Estar lá, preso onde não existe nada, não serve para nada. Não tenha medo, ou melhor tenha. Todos temos. A questão é, o medo irá ser o nosso guia? O nosso senhor supremo? O medo irá reinar sobre nossos desejos até o ponto em que acreditemos desejar apenas aquilo que o medo ordena? Porque é o que vai acontecer com todos os corações que ficam escondidos apenas ouvindo os barulhos dos que são massacrados do outro lado das trincheiras. O medo tornará verdade em você todas as mentiras que você odiou um dia, e quando isto acontecer, você terá morrido e não existirá mais.

E sabe por que você só ouve o som das mortes e dos livres caindo? Porque eles são poucos e lutam praticamente sozinhos. E você não os acha corajosos. Você os acha loucos e burros e os abandona ao seu imperador, o senhor medo, senhor de todos os seus desejos. Enquanto uns poucos estão lá fora lutando por você. Não é que eu não sinta medo. Tenho os meus. O que não tenho são minhas trincheiras para me contar que o medo é o meu senhor. Não que eu não carregue alguns sacos comigo às vezes, mas eu os largo. Não há nada como lutar de braços abertos, sentimentos fervendo no peito, mãos e boca repletas de palavras e alma repleta de verdade. Sim, é com a verdade que se combate o medo. Grite a verdade, proteja-a, faça-a existir até que o medo acabe ou que ele mate você. Morra, mas morra livre com honra e com todos os seus sentimentos vivos dentro de você. Se houver amigos conta tamanha coragem vocês podem até vencer. Se não houver. Lute assim mesmo, mesmo que sozinho e morra. Sim, lute e morra. Mas nunca seja você a mão que mata a verdade e os seus sentimentos.

Abandone as trincheiras. Ali é lugar para mortos. Venha lutar. Vamos todos lutar, vencendo ou não. E toda vez que cairmos. Levantemos e lutemos mais uma vez. Abandone as trincheiras. Não deixe que o medo seja o seu senhor absoluto, pois um dia irá acreditar em tudo o que ele te conta. E quando isso acontecer, esse medo será seu e você irá dá-lo a alguém um dia, perpetuando a mesma história para sempre.

Quando sentirem medo do tamanho do seu coração ou da beleza das suas palavras, ou ainda, da vida que há na sua liberdade ou dos seus braços abertos dizendo ‘é isso que eu sou’, vão tentar parar você. Seu sensor de perigo será ligado. E você foi treinado para considerá-lo um elemento da sua prudência. E assim você começará a servir ao medo dizendo que está esperando tudo dar certo. Não, não faça isso. É suicídio. Mantenha os braços abertos e grite o mais alto que puder, mais alto do que gritam os seus adversários. Grite até que te ouçam, ou até que fujam, ou até que matem você. Mas morra com honra. Porque essa é a única coisa que os servidores do medo não fazem.
Lute. Não pare. Vencendo ou não. Nunca pare. É hora de acabarmos com o medo que aprisiona o mundo em trincheiras escuras e mesquinhas. Muitos ainda vão cair. Mas cairão vivos e felizes. Enquanto os servidores do medo lamentam tudo o que nunca foram. É melhor morrer em campo com um sorriso no rosto do que envelhecer psicótico sabendo quem você nunca foi. Sofrendo de dor por nada, por uma vida que você nunca viveu. Sabendo que suas mãos estão sujas por todos os sonhos e sentimentos que você matou; e primeiro serão os seus, e quando terminar com eles, começará a matar os dos outros à sua volta, para que sejam todos iguais a você. Morra pela verdade, não se torne um assassino da verdade.


É hora de lutar sob a luz da lua e não sob a escuridão das trincheiras. É hora de não ter nenhum senhor e lutar pela liberdade. Ela não rouba nada de você. Lute. Vença ou perca. Continue lutando sempre. E toda vez que se esconder para planejar o que fazer pensando no seu adversário, não estará lutando, estará com medo se escondendo em suas trincheiras e tornando-os mais importantes do que você e assumindo para si o senhor de todos eles, o medo. Só há uma verdadeira estratégia possível, braços abertas e gritando e vivendo a verdade e assumindo o peso e as feridas de todas as consequências, só assim os desejos não desaparecerão de dentro de você. Lute. Viva ou morra. Lutaremos um ao lado do outro. Esse é o meu desejo e é isso que grito enquanto tentam me aniquilar. Lute. Lutemos. E seremos muitos. E seremos um. E seremos liberdade. 

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