A vida acaba quando plantamos
nossos pés como se fossem raízes. Tudo passa a não sair do lugar e o que há de
mais belo em nós acaba. Sucumbimos ao lugar e às pessoas e, inteligentemente
aprendemos que precisamos nos formar em alguma coisa, ter alguma carreira, conhecer
alguém, conseguir algum lugar para morar, ter algum carro, ou mais de um,
formar algum tipo de família. E assim veneramos o aqui e as pessoas que nos
fazem não evoluir, que estão aqui. E ficamos ao seu lado. E esperançosamente
sonhamos para que o aqui se torne um lugar melhor. E um dia seremos iguais ao
lugar, e a individualidade que havia em nós será apagada e enraizada junto com
nossos pés fincados no chão. E para nos defender existirão famílias, deuses,
rodas, amigos, emprego, salário, casa, escola, crenças e todas as belezas do
lugar. E tudo isso nos deixará tranquilos. Aprisionadamente tranquilos em
nossos leitos de descanso onde a vida passa enquanto curtimos pacatamente o
ficar aqui agarrados a algo que mal sabemos nomear. Agarrados a ‘alguma’ coisa.
Deveríamos nos agarrar ao vento,
mas ele passa por nossas mãos sem que possamos prendê-lo a nós. Deveríamos morar
nas estradas, mas elas não são lugares para ficar e sim para ir e não sabemos
estabelecer casas ali, ou melhor, viver sem as casas. Deveríamos nos cobrir de
palavras porque as palavras passam, mas mesmo assim são eternas e se guardam na
memória e no todo, onde a vida realmente existe. Deveríamos afundar as nossas raízes
em nossos sonhos e nunca mais sair de lá, mesmo que eles nos levem para o
infinito. E será quente, e será frio, e fará sol, chuva, neve. Mas sempre
haverá para onde ir, como o vento que sempre vai e as palavras que sempre são
ditas.
Ir é como criar. Ficar é como
repetir e copiar. E há os que acreditam que tudo já foi criado e agora só nos
resta repetir e viver a vida que nos permitem viver, sempre aqui, sempre ‘alguma’
vida que alguém vai nos proporcionar de alguma forma para sermos felizes de
alguma maneira sonhando algum sonho que não se pode realizar, mas de alguma
forma, nos conformaremos com alguma coisa um dia e seremos resignados e teremos
nossa alma tranquila na cadeira de algum psicólogo que nos ensinará de alguma
forma que temos que entender o mundo à nossa volta, como ele é bom e como nós
devemos nos adaptar a ele, entendê-lo e amá-lo como algum único mundo possível.
O mundo que preciso é feito de
ar, volátil demais para que as raízes se prendam, a não ser que elas aprendam a
se prender no vento ou no rabo de um cometa. E que eu morra em terra estranha
no meio de gente estranha. Porque saberei que morri indo, porque saberei que nunca
fui escravizado pela calmaria que o medo nos conta como escolha real e
verdadeira. Tudo o que preciso pode ser feito de palavras e amor e palavras e
amor mudam todos os dias, se tornando mais intensos, ou não. Mas podendo tudo,
podendo o infinito, vivendo na eternidade, sem medo de viver ou morrer. Porque quem
vai não morre nunca e quem sem enraíza não vive.
Quero me desapegar do tempo e do
lugar porque eles sequer existem. Quero me apegar apenas à arte que tenho. Quero
me apegar apenas aos sorrisos que me fazem bem e levá-los comigo para onde eu
for. Preciso ir, não posso ficar aqui para sempre. Até porque a eternidade é
muito pouco tempo para mim.
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