quarta-feira, 14 de outubro de 2015

raízes e vento

A vida acaba quando plantamos nossos pés como se fossem raízes. Tudo passa a não sair do lugar e o que há de mais belo em nós acaba. Sucumbimos ao lugar e às pessoas e, inteligentemente aprendemos que precisamos nos formar em alguma coisa, ter alguma carreira, conhecer alguém, conseguir algum lugar para morar, ter algum carro, ou mais de um, formar algum tipo de família. E assim veneramos o aqui e as pessoas que nos fazem não evoluir, que estão aqui. E ficamos ao seu lado. E esperançosamente sonhamos para que o aqui se torne um lugar melhor. E um dia seremos iguais ao lugar, e a individualidade que havia em nós será apagada e enraizada junto com nossos pés fincados no chão. E para nos defender existirão famílias, deuses, rodas, amigos, emprego, salário, casa, escola, crenças e todas as belezas do lugar. E tudo isso nos deixará tranquilos. Aprisionadamente tranquilos em nossos leitos de descanso onde a vida passa enquanto curtimos pacatamente o ficar aqui agarrados a algo que mal sabemos nomear. Agarrados a ‘alguma’ coisa.

Deveríamos nos agarrar ao vento, mas ele passa por nossas mãos sem que possamos prendê-lo a nós. Deveríamos morar nas estradas, mas elas não são lugares para ficar e sim para ir e não sabemos estabelecer casas ali, ou melhor, viver sem as casas. Deveríamos nos cobrir de palavras porque as palavras passam, mas mesmo assim são eternas e se guardam na memória e no todo, onde a vida realmente existe. Deveríamos afundar as nossas raízes em nossos sonhos e nunca mais sair de lá, mesmo que eles nos levem para o infinito. E será quente, e será frio, e fará sol, chuva, neve. Mas sempre haverá para onde ir, como o vento que sempre vai e as palavras que sempre são ditas.

Ir é como criar. Ficar é como repetir e copiar. E há os que acreditam que tudo já foi criado e agora só nos resta repetir e viver a vida que nos permitem viver, sempre aqui, sempre ‘alguma’ vida que alguém vai nos proporcionar de alguma forma para sermos felizes de alguma maneira sonhando algum sonho que não se pode realizar, mas de alguma forma, nos conformaremos com alguma coisa um dia e seremos resignados e teremos nossa alma tranquila na cadeira de algum psicólogo que nos ensinará de alguma forma que temos que entender o mundo à nossa volta, como ele é bom e como nós devemos nos adaptar a ele, entendê-lo e amá-lo como algum único mundo possível.

O mundo que preciso é feito de ar, volátil demais para que as raízes se prendam, a não ser que elas aprendam a se prender no vento ou no rabo de um cometa. E que eu morra em terra estranha no meio de gente estranha. Porque saberei que morri indo, porque saberei que nunca fui escravizado pela calmaria que o medo nos conta como escolha real e verdadeira. Tudo o que preciso pode ser feito de palavras e amor e palavras e amor mudam todos os dias, se tornando mais intensos, ou não. Mas podendo tudo, podendo o infinito, vivendo na eternidade, sem medo de viver ou morrer. Porque quem vai não morre nunca e quem sem enraíza não vive.


Quero me desapegar do tempo e do lugar porque eles sequer existem. Quero me apegar apenas à arte que tenho. Quero me apegar apenas aos sorrisos que me fazem bem e levá-los comigo para onde eu for. Preciso ir, não posso ficar aqui para sempre. Até porque a eternidade é muito pouco tempo para mim. 

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