domingo, 30 de agosto de 2015

o que eu não sei

Eu sou um homem do conhecimento, descobri isso ainda criança quando comecei a questionar os dogmas e as verdades que me ensinavam. A cada passo em minha vida, saber e entender se tornavam cada vez mais importantes. Confesso que rotulei e defini muitas coisas ao meu inteiro egoísmo. Entendo que tentei por muitos anos ver o mundo a partir das minhas fontes crescentes de conhecimento. Vi muitas coisas e aprendi muito neste caminho, contudo, sempre havia algo a aprender. Passei por teatro e literatura (que faço até hoje e são minhas mais fortes bases), estudei o pensamento religioso, o corpo e o movimento, cinema, culturas midiáticas e tantas coisas que seria desnecessário enumerar. Há pouco tempo comecei a estudar de verdade filosofia porque queria conversar sobre filosofia com uma pessoa especial para mim. Queria instruí-la na filosofia, pois sei que ela será grande nessa área. Então, era preciso estudar. E foi a primeira vez que disse ‘eu não sei’ sem me importar com isto.

Para ilustrar o meu texto vou utilizar uma história antiga da filosofia chinesa, escrita por Zhuangzi, logo em seguida um comentário retirado do livro de Gilberto Antônio Silva ‘Os Caminhos do Taoismo’
Um homem chamado Nanjung Chu procurou Laozi na esperança de encontrar respostas às suas preocupações. Ao se aproximar, Laozi falou:
– Por que me procurou com toda essa multidão de gente?
Ele se virou para trás para ver que multidão havia, mas nada viu.

[Essa história é muito interessante por ser a ancestral do conto Zen da xícara vazia, que todo mundo conhece. A multidão a que se refere Laozi é o conjunto de conceitos, velhas ideias, certo e errado, vida e morte, preconceitos e outros que carregamos aonde vamos. Ao buscar novas ideias, devemos nos afastar desta “multidão” que nos segue aonde quer que vamos.]

Não há como saber sem não saber. Quando adquirimos um conhecimento e um conjunto de hábitos culturais, sejam eles intelectualizados ou simplesmente oriundos do dia a dia, desenvolvemos um campo de visão e entendimento limitado. A partir daí, tudo deve caber nos degraus do nosso conhecimento fragmentado e limitado, como todo conhecimento o é. E se ficarmos estacionados ali criaremos raízes cheias de certezas e preconceitos e determinações de futuro e de como todos devem ser. Até que saberemos como todos são e poderemos rotular qualquer um à nossa volta. E em breve os olhos estarão cerrados, apenas ouvindo os gritos vindo de dentro, cheios de medo de saber o que não está ali, gritos de horror. E estaremos cegos pelo resto de nossas vidas, dando voltas em volta de nós mesmos, sem nenhum lugar para ir. E não aprenderemos mais nada, pois tudo deve ser medido através do que já sabemos.

A única forma de saber é não saber. Quando existir um campo de visão [e ele sempre existirá] entenda que ele é pequeno e frágil. Entenda que ele é tão fragmentado que cabe nele apenas uma porção ínfima da verdade. Então, nesse momento, olha fora do seu campo de visão e não saiba nada. Pois assim verá o que não está nos seu limitado conhecimento e, vendo isto, sem preconceitos ou medos ou determinações de certo e errado, você poderá aprender mais alguma coisa. E a cada cosa aprendida, nosso campo de visão aumenta e se diversifica. Só assim se pode aprender de verdade alguma coisa. Não há como aprender o que já sabemos ou cabe no nosso conhecimento habitual. O não saber, o desconhecido, esses são os melhores elementos para um crescente aprendizado.
Tire o seu ‘eu’ do jogo e olhe o outro e o mundo fora de você. Entenda o que puder entender. Aceite o que não conseguir compreender e caminhe perto para se tornar alguém com mais capacidade de compreensão. Sinta medo, e quando sentir, saiba que o desconhecido está ali e se aproxime e sinta o seu cheiro. Só aprende quem não sabe, e quem acredita saber sobre tudo já está imerso em uma ignorância imensurável.

Eu não sei praticamente nada. Por isso estou vivo e aprendendo. Sentirei medo e insegurança. E quando o mundo parecer um inferno seu saída, essa será minha grande lição de aprendizado.


Obrigado a você que me ensinou a ‘não saber’ todas as respostas. 

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